terça-feira, 18 de abril de 2017

QUAL A AGENDA CENTRAL, AS DELAÇÕES OU A LUTA CONTRA O DESMONTE?

A crescente impopularidade da reforma da Previdência - mais do que qualquer outra - levou o golpe às cordas. O cambalacho com as aposentadorias grudou na consciência da opinião pública como chiclete em sola de sapato. Não sai. A legitimidade do governo de Michel Temer desabou.

Por Gilberto Maringoni*

Se a reforma fizer água, adeus PEC 55. Vai ser impossível remanejar recursos dentro de um orçamento congelado - na verdade em contração por 20 anos - sem retirar bilhões da Seguridade Social.

Ou seja, a derrota nesse quesito inviabiliza a própria razão de ser do golpe. Não é arriscado dizer que nesse quadro, a ruptura patrocinada por Temer & cia. vira vinagre.

Apesar da extrema tensão na disputa política, não é essa a agenda do país, na visão da grande mídia. A agenda são as delações e as listas e depoimentos do empresariado. Trata-se de algo da maior importância, sem dúvida, para que se saiba quem desviou e quem roubou e como negócios de Estado foram determinados por grosso numerário que escorre de empreiteiras, pondo a nu parte dos negócios escabrosos da República. (Até agora os bancos estão ilesos da lambança, apesar de serem os maiores financiadores de campanhas).

Não se pode deixar a luta contra a corrupção morrer na praia, a bem de nossa vida pública e da democracia. No entanto, neste momento, no que toca às forças democráticas e progressistas, a luta contra as reformas é quilômetros mais importante.

É justamente em meio a uma guerra que pode ser vencida pelos de baixo que a grande mídia busca embaralhar as coisas. A tática da Globo e da matilha que a acompanha é, a partir do material bruto da lista de Facchin e da Lava Jato, definir três ordens de ataques:

1 - Todos os políticos são igualmente imundos, do PSDB ao PSOL, passando pelo PMDB, DEM e PT. Sendo assim, é preciso salvar o Brasil por algum caminho que não passe pela disputa política, mas por iniciativas "técnicas". Essas seriam as reformas, tocadas pela equipe econômica, que sabe o que faz e sobre quem nenhuma suspeita de corrupção paira;

2 - É preciso desmoralizar os agentes principais do combate às reformas, o movimento sindical. Três linhas de ofensiva são utilizados: A. O fim do imposto sindical, que teria criado uma casta de pelegos, B. O fim da unicidade sindical, que acabaria com a burocracia e C. Colocar em dúvida a lisura das direções sindicais. É bem verdade que uma certa esquerda, ao longo dos últimos 40 anos fez coro com o liberalismo, atacando essas características como fruto do "autoritarismo varguista". Dê-se o desconto e corrija-se a linha;

3 - A terceira escala de ataques materializa-se no fuzilamento da reputação de Lula. Aqui também vale destacar que o ex-presidente e a direção do PT devem ser cobrados enfaticamente não apenas pelas perigosas transações estabelecidas com a cúpula das empreiteiras (com casos claros de corrupção), mas também pelo fato de terem dado a largada na calamidade econômica que atravessamos. No entanto - vai aqui um lugar comum -, não é a hora. No meio da guerra não vale questionar o colega de trincheira se ele atira contra o mesmo inimigo que eu. Lula, depois de anos de ambiguidade, colocou-se firmemente contra as reformas regressivas. Tornou-se fator decisivo nesse enfrentamento, como mostram as pesquisas. Parar o combate para realizar uma exegese em seus pecados é coisa que favorece - neste momento - o outro lado. Barricadas não são o melhor lugar para se fazer DR.

A boa tradição do movimento social criou a figura do "inimigo principal" . Exemplo clássico se deu na II Guerra Mundial. Embora os imperialismos britânico e norteamericano fossem inimigos estratégicos da União Soviética, diante da agressão do nazifascismo, uma frente única se fez. Os atritos entre aliados ficaram para o pós-Guerra. Aliás, para depois de vencida a Guerra.

Nem Lula e nem setores conservadores do movimento sindical podem ser comparados aos que eram os EUA e a Grã-Bretanha nos anos 1930-40. Estão juntos com a maré montante das multidões que parará o Brasil no 28 de abril. Essas discordâncias terão hora e vez para serem tratadas (e ninguém as esquecerá). Agora é hora de atirar em uma só direção e para fora da trincheira.

Gilberto Maringoni é professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).
Fonte: Facebook do autor

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