terça-feira, 11 de abril de 2017

O DESENVOLVIMENTO DISTRIBUTIVISTA E A LUTA ENTRE VALORES MODERNOS E MERCANTIS

Em comparação com os últimos cinquenta anos, o Brasil experimentou nos governos Lula e Dilma um momento inédito de transformação da sua estrutura social. As políticas de elevação real do salário mínimo, de expansão da oferta de crédito e de ampliação dos programas de transferência de renda, entre outras, estimularam o crescimento do PIB com base no avanço do mercado interno e originaram um tripé socioeconômico virtuoso caracterizado pelo aumento do mercado formal de trabalho, redução da pobreza e melhora na distribuição de renda.

Entretanto, a retração do ciclo econômico e a crise política provocaram a interrupção do processo de inclusão social, de distribuição de renda e de mobilidade social. Se, por um lado, tal fenômeno desperta o medo ou o ressentimento pelo declínio social, por outro lado, a crise reabre uma janela de oportunidades fazendo com que parte da população perceba a importância, nas suas trajetórias individuais, das políticas públicas implementadas pelo chamado período do lulismo.

Essa combinação de fatores tem como uma de suas principais consequências a formatação de uma nova subjetividade entre as camadas populares das grandes cidades do país. Trata-se, em síntese, de um grupo social cujos valores e votos permanecem em disputa, defendem o empreendedorismo, mas apoiam intervenções do Estado e comungam relações de comunidade e vizinhança.

Ao mesmo tempo, defendem a moralidade tradicional, rechaçando a repressão extrema, e aceitam as novas configurações familiares. Por outro lado, defendem o livre-funcionamento do mercado, ainda que reclamem por maiores investimentos governamentais nos serviços e equipamentos públicos.

Para compreender essas mudanças em sua inteireza é preciso empreender uma análise que ultrapasse as leituras baseadas nas informações de renda e rendimentos. É preciso, neste sentido, incorporar outras variáveis como a estrutura ocupacional, o acesso a mercadorias privadas e aos serviços públicos, bem como os padrões de consumo, entre outros.

Todos são elementos que permitem uma aproximação, ainda que muito preliminar, das preferências desse novo grupo social. Sob essa perspectiva que se evidencia o estrato laboral que ascendeu socialmente e economicamente nos últimos anos na forma de uma nova classe trabalhadora urbana assentada nos serviços.

Do ponto de vista ocupacional, tratam-se de vendedores, balconistas, motoristas, motoboys, profissionais de telemarketing e diversos tipos de auxiliares que atuam em empresas e comércios, como recepcionistas, cabeleireiros, garçons e uma heterogeneidade de trabalhadores qualificados. Em relação à educação, por exemplo, os seus integrantes na maioria são aqueles que utilizam as escolas públicas ou escolas particulares com mensalidades mais baixas.

No caso da saúde, são aqueles que necessitam dos hospitais públicos ou de planos de saúde mais baratos. Esse balanceio instável entre os serviços públicos e as possibilidades privadas mais “em conta” se reproduz em outras esferas: habitação, transporte, segurança, alimentação, cultura, lazer, entretenimento etc.

Por esses motivos, ao contrário da classe média estabelecida que se queixa dos impostos inadvertidamente, a nova classe trabalhadora percebe com contrariedade o aumento de impostos, taxas e tarifas, pois sua elevação lhe afeta mais diretamente o poder de compra. Mas ela também reconhece a importância e a necessidade dos serviços públicos, pois depende deles mais frequentemente.

Essa nova classe trabalhadora de serviços trabalha, em grande medida, de dez a catorze horas por dia, tendo, muitas vezes, dois ou mais empregos. Trabalha de dia e estuda a noite e, nas grandes cidades, enfrenta horas de transporte público enquanto se desloca entre a casa e o trabalho.

Também por esses motivos, ao contrário da classe média tradicional que tudo atribui ao mérito individual, a nova classe trabalhadora percebe sua ascensão como fruto do esforço individual e de privações, mas sabe que precisa contar frequentemente com alguma rede de solidariedade e laços fraternos entre os amigos, os vizinhos e a igreja. Mais do que outros estratos, esse grupo se beneficiou da expansão do crédito ao consumidor e está satisfeito com a possibilidade de adquirir novos bens considerados indispensáveis para o conforto doméstico e para a melhora na qualidade de vida na cidade.

Por esses motivos, ao contrário da classe média estabelecida, esse grupo queixa-se menos das taxas de juros abusivas e está mais disposto a encontrar sua sociabilidade pelos caminhos do consumo, o que não equivale ao consumismo, pois trata-se ainda do consumo de bens duráveis como eletrodomésticos e eletroeletrônicos. Esse conjunto de ambiguidades leva a crer que a cultura política da nova classe segue sendo uma questão em disputa.

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