terça-feira, 11 de abril de 2017

BRASIL O DESENVOLVIMENTO CONCENTRACIONISTA E O CONSUMO COMO DIFERENCIAÇÃO SOCIAL.

Sem contestação, os valores capitalistas foram reinventados entre as décadas de 1960 e 1980. Enquanto o privatismo patriarcalista da casa-grande se prolongou no familismo empresarial, a desvalorização do trabalho herdado pela escravidão se redefiniu na cisão entre as funções intelectuais e as tarefas manuais.

Da mesma forma, a reverência à hierarquia das ordens tradicionais se transfigurou na suposta concorrência que seleciona superiores e inferiores, assim como a ideia de país tomado como negócio, não como nação, ganhou fôlego redobrado. Isso tudo porque a aspiração à ascensão individual no Brasil não se lastreou no progresso técnico, mas na corrida pelo consumo.

Em contrapartida, os valores modernos foram obstruídos por grandes barreiras. A secularização, o racionalismo e a ilustração, capazes de inculcar as ideias de autonomia, igualdade e liberdade, trouxeram consigo os conteúdos éticos e humanistas que não ecoaram diante dos limites impostos pela lógica utilitarista e mercantil vigente no Brasil.

Em síntese, a ausência dos valores modernos capazes de refrear as aspirações mercantis mais primitivas possibilitou a exploração econômica e a dominação política perpetuadoras das desigualdades sociais fundadas num capitalismo sem iluminismo. Assim, pode-se dizer que o industrialismo foi sobrepujado pelo consumismo como lógica de organização social.

Tal alteração ocorreu precisamente por ocasião do Golpe de 1964, quando a política econômica se mostrou capaz de combinar o crescimento econômico com a concentração de renda. Dessa forma, a acumulação de lucros e riqueza, ao mesmo tempo em que patrocinou a diferenciação entre os salários, possibilitou a reprodução desigual das capacidades de consumo.

A deformação da sociedade instalada foi fraturada em três dimensões distintas. De um lado, o mundo desfrutado por ricos e privilegiados que tinham no consumo de luxo e regado pela ostentação e suntuosidade a principal característica.

De outro lado, o mundo permeado pelos vários segmentos de classes médias e remediados, cujo tipo de consumo se apresentou enquanto simulacro e imitação do mundo dos ricos. Por fim, o mundo povoado por pobres e miseráveis aprisionados pelos salários baixos assentados na reprodução precária do padrão de consumo, sem a capacidade de consumir massiva e sustentadamente no médio e longo prazos.

Mas as agruras impostas ao país pela ditadura militar não se restringiram ao plano político e econômico, elas também se espraiaram pela esfera social e cultural. Isso porque ao cerceamento do espaço público seguiu-se, imediatamente, o estabelecimento de uma opinião privada. Disfarçando-se em meio a entretenimentos ou revestindo-se de objetividades, as empresas televisivas e jornalísticas formavam uma pequena confraria que, com a anuência do governo militar, patrocinavam a instauração de uma indústria cultural americanizada no país.

A prioridade da TV e do entretenimento sobre a informação e a educação sob a preeminência de empresas privadas sobre a opinião pública promoveu o triunfo de normas mercadológicas sobre princípios modernizantes. Desse modo, a sociedade brasileira passou diretamente da deseducação para a massificação, criando consumidores sem que se houvesse formado cidadãos.

A partir dos anos de 1990, o padrão deformado de sociabilidade durante a industrialização tardia desacompanhada das reformas do capitalismo contemporâneo sofreu as consequências do neoliberalismo e da globalização financeira. Dessa forma, o desenvolvimento capitalista impôs obstáculos ao florescimento e à consolidação da modernidade no país.

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