domingo, 2 de abril de 2017

AGRESSÕES QUE PODEM DESTRUIR VIDAS

Episódios de violência marcam a vida de crianças e jovens. No Brasil, 43% deles são vítimas dessa prática. Saiba como agir diante do problema

Nas últimas décadas, o bullying se tornou tema de debates em todo o mundo. Apesar do ato estar presente na sociedade há muitos anos, apenas com a disseminação de casos mais graves o assunto começou a ser tratado com mais seriedade.

A prática está presente em diversos ambientes e qualquer pessoa pode ser vítima direta ou indiretamente dela, independentemente de nível social, idade ou grau de escolaridade. Mas é mais recorrente entre crianças e adolescentes. Uma pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU), feita com 100 mil menores de idade de 18 países, mostrou que, em média, metade deles já foi vítima de bullying. No Brasil, o percentual é de 43%. 

Geralmente, os casos geram efeitos nocivos que podem afetar o desenvolvimento do jovem. Além dos efeitos psicológicos, o bullying ainda provoca consequências que podem ser mais sérias.

O bullying é caracterizado quando a vítima sofre um conjunto de atitudes agressivas e repetidas que ocorrem sem motivação. Nelas há a intenção do agressor de hostilizar a vítima, por meio de insultos, intimidações, gozações e violência física. “O bullying pode ser direto, quando as vítimas são atacadas por apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos e ofensas verbais. Ou ainda indireto, quando acontece na ausência da vítima. O bullying direto é mais frequente em meninos e o indireto, em meninas”, destaca o psiquiatra Sérgio Tamai, presidente do Departamento de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina.

A ocorrência é muito comum na escola, mas uma nova prática tem sido constante: o cyberbullying. “É o bullying praticado no ambiente virtual, que tem acontecido com mais frequência no mundo. Trata-se do uso da tecnologia para difamar alguém por e-mail, mensagens por celulares, fotos digitais, sites pessoais, etc.”, ressalta o especialista.

As vítimas costumam apresentar particularidades físicas ou psicológicas, como obesidade, uso de óculos, deficiência física, baixa estatura, manchas na pele, sotaques, crenças religiosas ou dificuldades de aprendizagem. 

Além de apresentar problemas físicos (cortes, arranhões, hematomas e feridas) e mudanças no comportamento, quem sofre bullying também pode desenvolver doenças psicossomáticas. “A pessoa pode apresentar cefaleia, dores epigástricas, síndrome do intestino irritável, paralisia, anorexia, bulimia, perda de memória, problemas na visão, entre outras”, lista Tamai.

Não é apenas na infância e na adolescência que a vítima sofre com as consequências dessa prática. “Crianças vítimas de bullying são mais propensas a sofrerem depressão e baixa autoestima quando adultas, o que trará prejuízos no desenvolvimento profissional e nos relacionamentos afetivos”, revela o psiquiatra.

As pesquisas confirmam. Segundo um levantamento feito pelo Estudo Nacional de Desenvolvimento Infantil Britânico, os efeitos dessa prática podem ser desastrosos por longos anos. Foi avaliado que os participantes que sofreram ataques na infância apresentaram alto índice de ansiedade, isolamento, insatisfação e pensamento suicida aos 45 anos, comparados àqueles que não viveram isso.

E não é apenas a vítima quem desenvolve problemas ocasionados pelo bullying, mas também o agressor. Outro estudo, feito pela Universidade de Warwick, no Reino Unido, revelou que crianças que sofriam ou praticavam bullying apresentaram mais risco de desenvolver problemas de saúde quando adultos, de fumar com frequência ou de ter algum tipo de transtorno psiquiátrico.

O psiquiatra Sérgio Tamai alerta que os pais precisam estar atentos ao comportamento dos filhos. “Apesar do sofrimento, as vítimas raramente admitem ou reclamam da violência recebida por medo de represálias ou ainda por se acharem merecedoras desses atos.”

É preciso também observar suas atitudes para que eles não se tornem praticantes do bullying. Se em casa, a criança se depara com agressões na família, ausência de afetividade e inexistência de diálogo, estará mais propensa a repetir tudo isso.

A escola também pode ajudar nesse controle. Para o psiquiatra, o enfrentamento do bullying envolve uma parceria contínua dos pais com a escola. “Deve-se exigir que as escolas tenham procedimentos preventivos e normas claras e objetivas, aplicadas com rigor e transparência; formação de uma equipe multidisciplinar e interinstitucional visando à formação continuada dos educadores; treinamentos através de técnicas que estimulem os alunos a adquirirem habilidade para lidar de diferentes formas com o bullying; e formação de grupos de apoio, que protejam os alvos e auxiliem na solução dessas situações”, finaliza o especialista.

.Por Janaina Medeiros e Débora Vieira /edição 1304 Folha Universal

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