terça-feira, 11 de abril de 2017

A SOCIEDADE DE MERCADO ENTRE O MODERNO E O MERCANTIL

Considera-se a mistura de valores do individualismo com os de solidariedade. De um lado, o anseio pela ascensão no trabalho e o sucesso pelo mérito combinando-se, de outro lado, com os valores mais solidários e coletivistas relacionadas à atuação do Estado, à universalização de direitos, à ampliação da inclusão social.

Permeiam, neste sentido, a visão de mundo e o imaginário da nova classe trabalhadora de serviços nas periferias de São Paulo. Sendo assim, qualquer tipo de explicação dualista: progressistas vs. conservadores, esquerda vs. direita, liberais vs. estatistas pode incorrer numa simplificação grosseira, feita ou por desconhecimento e ingenuidade ou por má fé e oportunismo.

Para compreender a relação entre as preferências econômicas e políticas dessa nova classe trabalhadora é fundamental considerar que o aumento do poder de compra possibilitou o acesso a novos canais de formação e informação. Mais do que isso, a presença, sobretudo, de um número significativo de jovens, cujas opiniões se irradiam certas opiniões políticas e eleitorais.

A progressiva ampliação do acesso à educação e à internet tem promovido uma importante mudança em suas exigências e interesses políticos. No atual contexto, o eixo da formação da opinião familiar ou comunitária passa a ter um peso mais decisivo dos jovens.

A propósito, a maior parte desses jovens tem níveis de escolaridade mais elevados do que os dos pais, está conquistando uma melhor inserção profissional e segue atenta para as mudanças tecnológicas. Por isso eles são ouvidos com maior atenção dentro das suas famílias e comunidades, atuando como referências importantes para a formação de opinião, concorrendo com a própria televisão.

Do ponto de vista religioso, o avanço do neopentecostalismo não significa necessariamente uma adesão imediata à chamada teologia da prosperidade. A igreja é mais importante do que a teologia, ou seja: o espaço de convívio e acolhimento acaba cumprindo a função de criação de laços e de prestação de serviços.

Essa disposição para a mudança, entretanto, passa por marcos ambivalentes, pois essas pessoas acreditam na política, mas não creem em partidos. Ademais reconhecem a importância da coletividade, mesmo que almejam crescer individualmente, assim como buscam transformações, embora pouco afeitos a rupturas e anseiam por novas ideias, ainda que pragmáticos. Em suma, esse novo caldo cultural exigirá renovações tanto na forma como se realiza a política partidária quanto no conteúdo das políticas públicas que se implementam.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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