terça-feira, 25 de abril de 2017

A REALIDADE DOS ERROS MÉDICOS

A cada três minutos, dois brasileiros morrem por falhas em hospitais do País. Confira os relatos de quem quase fez parte dessa estatística

Recentemente, os noticiários divulgaram o caso de uma menina de 12 anos que morreu após uma doença grave nos rins e nos pulmões que foi diagnosticada erroneamente como gases.

Horas antes de morrer, ela foi levada à Unidade Básica de Saúde (UBS) de seu bairro, em Iperó, São Paulo, mas foi orientada a voltar para casa. Como o mal-estar persistia, a menina foi levada a outra unidade de saúde. Contudo, não pôde ser avaliada, pois estava fora da faixa etária que era atendida no local.

A família seguiu para outro posto médico, onde foi informado que o quadro, na verdade, era muito grave e que ela estava com edema pulmonar e insuficiência renal. No entanto, não havia mais tempo para que fosse tratada. Alguns minutos depois do atendimento, ela faleceu.

Infelizmente, erros em atendimento médico têm sido muito comuns atualmente. Esse cenário é tão espantoso que a Organização Mundial da Saúde o reconhece como um problema de saúde pública. E não é para menos, já que, no mundo todo, acontecem 42,7 milhões de complicações hospitalares em um universo de 421 milhões de internações realizadas por ano.

No Brasil, o número de falhas médicas é assustador. Conforme um estudo divulgado no final de 2016 pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), até 434 mil pessoas podem ter morrido em 2015 por erros desse tipo enquanto estavam hospitalizadas nos sistemas público e privado do País – o que equivale a dois óbitos a cada três minutos.

De acordo com o estudo, essas mortes estariam à frente daquelas causadas por doenças do aparelho circulatório (que mataram mais de 339 mil pessoas em 2013) e até por câncer (que respondeu por mais de 196 mil óbitos em 2013).

A culpa é de quem?

As complicações durante atendimentos médicos ocorrem por causa de uma infinidade de eventos adversos, como erros na dosagem de medicamentos, uso incorreto de equipamentos e até infecção hospitalar.

As causas também podem estar relacionadas aos profissionais, como baixa remuneração e longas jornadas de trabalho. Porém, nem sempre estão diretamente ligadas a eles, mas a um conjunto de falhas no sistema de saúde, como explica Renato Couto (foto ao lado), professor da Faculdade de Medicina da UFMG e um dos responsáveis pelo estudo. “O determinante é a má organização do trabalho. A atividade assistencial é muito complexa e organizá-la não é algo trivial. Por isso, há técnicas de gestão específicas para esse tipo de organização que não se encontram disseminadas no País, mas que são necessárias para controlar o problema”, diz.

Segundo a pesquisa, grande parte da rede hospitalar não atende aos requisitos mínimos necessários para a segurança dos pacientes. Muitos hospitais, por exemplo, têm superlotação, falta de insumos e informações desatualizadas, que podem causar os erros médicos.

Outro fator que prejudica o atendimento é a falta de transparência dos hospitais. O professor destaca que, no Brasil, eles não são obrigados a divulgar indicadores de qualidade, como tempo de internação ou número de mortes. Além disso, as instituições acabam sendo beneficiadas pelo método de pagamento, que remunera o procedimento e não o resultado gerado. Isso significa que, se uma pessoa fica mais tempo hospitalizada por causa de uma complicação, por exemplo, em vez de o hospital ser punido por não ter prevenido o problema, acaba ganhando mais pelo tempo extra que a pessoa ficou lá. “O modelo de pagamento é o indutor do péssimo funcionamento. Quanto maior a qualidade de organização, menos ela ganha”, aponta Couto.

Ele admite que a superlotação que existe na maioria dos hospitais pode causar erros médicos, mas considera que “dentro da estatística o erro é previsto”. “O que nós da Federação procuramos orientar é que os hospitais estejam sempre informados, acompanhando a legislação que frequentemente está mudando e que eles não atendam acima da sua capacidade”, informa.

O presidente ainda observa que a Federação está atenta ao controle para minimizar as falhas. “A FBH tem a missão de orientar os hospitais para que ofereçam materiais, medicamentos e equipamentos para que os pacientes tenham condições adequadas à sua plena recuperação.”

Para mudar o cenário

A tramitação de processos por erros médicos no Brasil geralmente é muito lenta e são raros os casos de cassação do diploma. De acordo com o advogado Elton Fernandes (foto ao lado), especialista em Direito da Saúde, ainda se vê muita impunidade. “Há casos que tudo leva a crer que houve erro médico, mas o silêncio dos envolvidos e a pressão são tão grandes que ninguém fala, dificultando, inclusive, a realização de um trabalho de prevenção. Já vi até o prontuário médico ser alterado para evitar que o paciente descobrisse o erro e para que tudo parecesse apenas uma complicação natural da cirurgia”, aponta.

Quando uma pessoa passa por um erro médico ela pode denunciar a instituição e o profissional. O objetivo não é prejudicar pessoas ou punir, mas reparar direitos para que os cuidados sejam redobrados e se evitem mais falhas.

É fundamental que médicos e locais de assistência ofereçam atendimento marcado por um bom relacionamento pessoal, com dedicação e tempo de atenção, e que pacientes ou responsáveis aprendam a questionar a forma como serão assistidos e que não julguem toda a categoria por causa de um caso isolado.

Por Janaina Medeiros /edição 1307 Folha Universal

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