terça-feira, 11 de abril de 2017

A INDUSTRIALIZAÇÃO TARDIA E A SOCIEDADE DE CONSUMO

Nas décadas entre 1930 e 1950, acelerou-se o processo brasileiro de industrialização, com a modernização de setores industriais tradicionais (alimentos, têxteis, calçados, móveis) e a formação dos setores industriais mais complexos (aço, petróleo, alumínio, químicos e farmacêuticos).

Além disso, neste mesmo período, emergiram mudanças significativas no processo de comercialização dos produtos, com o surgimento dos supermercados, shopping centers, cadeias de lojas de eletrodomésticos, revendedoras de automóveis e lojas de departamento.

As relações entre a alteração na oferta de produtos e na circulação de mercadorias implicaram novos hábitos de vestuário, alimentação, higiene pessoal, limpeza da casa, entre outros, o que ensejou um novo padrão de consumo. Tratou-se de singular combinação das mudanças no sistema produtivo com a nova estrutura social acompanhada ainda por transformações profundas na dinâmica de consumo.

Durante esse período a industrialização acelerada não poderia deixar de representar também a urbanização caótica e desenfreada. Dessa forma, a estrutura rígida do campo cedeu lugar à sistemática competitiva da cidade, com a extrema pobreza e a miséria sobrepujadas pela esperança e desejo da migração.

Além disso, a tradicional família conjugal e de compadres e vizinhos deu lugar à família unicelular, de pais e filhos, e sem cultura de vizinhança e compadrio. A antiga educação pelo trabalho foi substituída pela educação escolar.

Nesse processo, o imigrante estrangeiro pôde usufruir de sua pequena vitória na luta por melhores posições sociais, dada a sua melhor posição financeira de saída, pois muitos passaram de mascates a empresários e de trabalhadores especializados converteram-se em profissionais liberais. A mesma sorte, contudo, não transcorreu com os migrantes rurais nacionais, mesmo que a sua situação tenha melhorado relativamente, a pobreza do campo terminou sendo substituída por não mais do que algumas tarefas de pouca qualificação e de baixa remuneração nas cidades. Os negros urbanos, em sua grande maioria, permaneceram confinados ao trabalho subalterno, rotineiro e mecânico.

Tais mudanças e permanências revelaram como o capitalismo tardio criou a ilusão de que as oportunidades econômicas seriam iguais para todos. Na realidade, a mercantilização da sociedade foi a que se apresentou como o único denominador comum.

No topo dessa sociedade abrigou-se um pequeno conjunto de capitalistas, banqueiros e industriais menos interessados em liderar o desenvolvimento econômico do país e mais interessados em tirar proveito da ação do Estado e da atuação da grande empresa multinacional. Na faixa intermediária, acotovelaram-se uma classe média alta de profissionais em busca da qualificação fundada no ensino superior e uma classe média baixa de operários à procura de especialização.

Na base dessa pirâmide, por fim, as incontáveis famílias de trabalhadores comuns subsistiram, com migrantes recém-chegados e de citadinos empobrecidos de diversas partes do país. Essa mobilidade social terminou se transformando no grande charme do capitalismo tardio.

De todo o modo, percebeu-se que, de um lado, a separação entre os distintos segmentos sociais assentava-se na hierarquia rígida dos trabalhos e remunerações urbanas e industriais. De outro, o elemento de convergência terminou sendo o atendimento de certas necessidades e desejos de consumo.

Neste sentido, nota-se como o processo de diferenciação do trabalho e a generalização do consumo se deram no mesmo compasso. A corrida pela ascensão social apresentou-se menos como um fruto do progresso industrial e tecnológico e mais como uma corrida de miseráveis, pobres, remediados e ricos pela atualização dos padrões de consumo.

Desse descompasso entre a produção industrial e a circulação mercantil é que emergiu a modernidade interrompida, cujo desenvolvimento capitalista foi acompanhado pela deformação da sociabilidade brasileira.

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