segunda-feira, 6 de março de 2017

SELFICÍDIO: O DISTÚRBIO DA AUTOIMAGEM

A obsessão pela foto perfeita pode ser sinal de um transtorno. Confira as características desse problema

Com o avanço dos smartphones, o hábito de fazer selfies (fotos de si mesmo) e postar em redes sociais virou uma febre, principalmente entre os jovens. Contudo, essa prática tem favorecido uma situação mais séria: a constante insatisfação com a foto, denominada selficídio.

O termo foi criado para relatar um sintoma do transtorno dismórfico corporal (TDC). Esse distúrbio é caracterizado quando há uma distorção na maneira como a pessoa se vê. “O selficida é aquela pessoa que faz selfies até achar uma que considera perfeita, mas nunca acha. Ela vive descontente com o que enxerga, pois exige um padrão de imagem que nunca conseguirá alcançar”, explica a psiquiatra Carla Mesquita Souza.

Para quem ainda não ouviu falar do problema, o comportamento pode parecer piada ou brincadeira. No entanto, trata-se de uma condição grave. No início do ano, por exemplo, uma jovem indiana de 18 anos foi até o Instituto Médico da Índia dizendo que tinha uma deformação no nariz. Ela se preparava para fazer uma cirurgia por estar sempre insatisfeita com seu rosto. Contudo, o médico que a atendeu percebeu que havia algo de errado em seu comportamento. Após diagnosticar que a jovem tinha o transtorno, o especialista considerou que a intervenção não seria necessária. “Ela queria ter certeza que estava linda ao longo do dia e, por isso, procurava a opinião das pessoas postando muitas fotos em suas redes sociais como Instagram e Facebook”, disse ao site britânico Daily Mail.

Na mesma semana, outros três jovens também haviam se apresentado ao hospital indiano Sir Ganga Ram com sintomas de ansiedade provocados pelo transtorno da autoimagem e pela atitude compulsiva de fazer selfies.

Além do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) também é bastante comum entre os selficidas. “A obsessão pela foto perfeita faz com que essas pessoas refaçam a selfie inúmeras vezes. Ela tira a foto, apaga, tira de novo, edita as imperfeições, etc.”, diz a psiquiatra.

Ela ressalta que a preocupação exagerada com um defeito, seja real, seja imaginário, faz com que essas pessoas fiquem dependentes desse tipo de ato. “Elas sentem a necessidade de fazer poses na frente do celular para encontrar o melhor ângulo que esconda as suas imperfeições.”

Consequências

Apesar de bastante comum atualmente, o selficídio apresenta sintomas muitas vezes ignorados por quem os tem. De acordo com uma pesquisa da Associação de Psicologia Norte-Americana, cerca de 60% das mulheres com esse comportamento não o percebem.

O psiquiatra Romeo Carlos Dutra destaca que esse transtorno atinge adultos de ambos os sexos, mas geralmente costuma se manifestar principalmente em mulheres e mais entre os 12 e 20 anos de idade. “Os adolescentes são os mais afetados, porque estão sempre querendo a aceitação de sua própria imagem. Eles postam as selfies, já manipuladas em programas de edição, à espera de muitas curtidas para que sintam a aprovação das pessoas.”

Outro fator que desencadeia esse distúrbio está associado aos padrões de beleza impostos pela indústria da moda e da publicidade. Muitos jovens se espelham em parâmetros irreais e os usam como base de comparação, o que gera muito sofrimento.

As muitas possibilidades de mudar o corpo também influencia nesse comportamento. “Hoje em dia há muitas opções de procedimentos estéticos. Então, as pessoas querem se ‘transformar’ para se encaixarem naquilo que veem como modelo”, comenta o psiquiatra.

Geralmente, o selficídio traz grandes prejuízos à vida, como anorexia e até pensamentos de suicídio. “Ao não atingir a perfeição nas fotos, a expectativa da pessoa é frustrada, um fator desencadeante da depressão”, afirma Carla.

Além disso, a pessoa que sofre com esse distúrbio é frágil emocionalmente e vulnerável a críticas. Por causa disso, ela apresenta baixa autoestima e problemas de relacionamento. Entender como funciona esse distúrbio faz com que o selficida passe a reconhecer esse comportamento para, então, começar a controlar suas atitudes.

É fato que gostamos mais de uma parte do nosso corpo do que de outra, assim como há alguns traços de nossa personalidade que nos agradam e outros que não. Entretanto, devemos nos aceitar como somos. O que não significa não querer mudar ou evoluir, mas sim nos concentrarmos naquilo que amamos em nós mesmos. É importante buscar referências para melhorar como pessoa interiormente, mas não permita mudar características que foram criadas para você.

Ressalte as suas qualidades e não caia na armadilha da comparação. Você só terá a ganhar com isso.

Por Janaina Medeiros / Foto: Fotolia/ edição 1300 Folha Universal

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