terça-feira, 21 de março de 2017

QUANDO O "CHEFE SABE-TUDO"

Ele sabe tudo. É o maioral. Um gênio em sua expertise. Não precisa de ninguém. Diz que até uma pedra pode fazer o trabalho de determinado subalterno. Acha que já alcançou o Olimpo de seu ramo por estar num cargo de liderança e não há nada novo a aprender. Isso tudo segundo ele mesmo, claro. Esse é o chamado “chefe sabe-tudo”.

Na verdade, algumas dessas atitudes podem esconder não só incompetência como também insegurança. No “menos pior” dos casos, pode ser apenas o fato de a pessoa não estar preparada para lidar com o poder.

“Sim, lidar com o poder é uma questão de aprendizado”, observa a coach e psicóloga Eunice Brito, de São Paulo. “É um desafio para o ser humano em qualquer dimensão de sua vida. Um ‘chefe sabe-tudo’ está numa situação patológica em que não reconhece que os outros têm algo a contribuir.”

E quando é questão de insegurança? “Alguns ‘vestem’ um cargo visando a uma pretensa superioridade e caem no problema de não reconhecer o semelhante como ser humano”, explica Eunice.

“Vou ser sempre assim”

A coach explica que a liderança é desenvolvida com técnicas aprendidas para se conduzir um grupo de pessoas e alcançar resultados com elas, “sem que a empresa ou o chefe sejam ‘máquinas de moer carne’ com os funcionários, exaurindo-os de energia e motivação”, compara. Aí entra muito a questão do “manda quem pode” e todo mundo que aceite, na mentalidade de algumas organizações e pessoas doutrinadas por elas.

“Empresas assim ainda existem e chefes assim também”, diz a psicóloga, “aqueles, por exemplo, que impõem metas humanamente inalcançáveis, irreais”. Segundo ela, esse tipo de trabalho extenuante é infrutífero e resulta na diminuição da autoestima do profissional, um grande perigo na vida laboral e pessoal.

“Liderança educativa”

Eunice revela que ainda há empresas e chefes com poucas formas de reconhecimento do seu colaborador: “Algumas, inclusive, acham que reconhecer alguém é só oferecer um bom salário e o resto se resolve, e não é”.

“Ninguém é perfeito”, lembra a especialista, “mas isso pode ser contornado. Para ela, “é preciso separar a pessoa do que ela faz na hora de analisar algum feito dela, pois não somos exatamente o que fazemos, são coisas diferentes”.

Eunice explica que a pessoa deve se sentir reconhecida, mesmo quando é chamada para receber uma crítica por algo. “O líder deve primeiro mostrar apreço pelo ser humano ali na sua frente, que o reconhece e o respeita, para só depois chegar na questão do ‘olha, mas tal coisa que você fez não foi boa’. Assim, o funcionário não se sente desnecessariamente pressionado e recebe a crítica de uma forma mais positiva”. É o que ela chama de “liderança educativa” – que impulsiona para frente e contribui enormemente para a formação do trabalhador.

Do modo oposto, primeiro o chefe chegar com o “dedo acusador” no rosto do subordinado, ele pode se sentir contrariado e sua dedicação pode cair. “A liderança deve ser empática, não coercitiva”, frisa a coach.

Contato inteligente

Nenhum chefe pode se dar ao luxo de achar que se basta. O resultado da equipe é muito o reflexo de sua liderança. E o entrosamento com ela é precioso. Assim, o líder também tem a liberdade de pedir ajuda aos comandados. “É para isso que existem secretários e secretárias, por exemplo, ou qualquer tipo de auxiliar. De repente ele sabe algo novo que o chefe ainda não domina e este pode muito bem pedir para que aquele lhe ensine algo. Toda a equipe ganha com isso, com bons resultados”.

A habilidade no contato com qualquer posição na hierarquia revela talentos – e o “talentoso” em questão se sente reconhecido, o que tem impactos bastante positivos em sua dedicação e nos frutos de suas ações. “O mundo gira, as tecnologias avançam e o aprendizado delas depende de comunicação”, lembra Eunice.

Por Marcelo Rangel / edição 1302 Folha Universal

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