sábado, 25 de março de 2017

CRISE NAS LIVRARIAS: A ÚNICA SAÍDA É PENSAR EM UMA SAÍDA

Assim começou março de 2017 para as livrarias: a tradicional Livraria República, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, não aguentou o baque de professores sem salários e alunos sem aulas, anunciando o seu fechamento; e a Fnac francesa informou o desejo de se livrar da filial brasileira. Antes, em fevereiro, soubemos que Saraiva e Cultura planejam uma fusão. Pequenas e grandes livrarias se veem com problemas: afinal de contas, o que estamos vivendo?

As dificuldades enfrentadas pelas livrarias hoje são apenas o sinal mais evidente de uma combinação de crises que atinge o mercado editorial: temos uma crise internacional que completa nove anos em 2017; temos também uma crise econômica no Brasil – finalmente atingido pela recessão mundial em fins de 2014 – que se aprofundou mais ainda com a dose cavalar de remédios amargos do governo em exercício, cujo compromisso com os eleitores pobres tende a zero; e, finalmente, temos uma crise tecnológica que alcança o setor: empresas com acesso ao big data sabem tudo sobre os nossos hábitos e gostos, enquanto os ganhos digitais que favoreceram as reduções de custos das pequenas empresas do setor nas últimas décadas parecem se esgotar.

Soma-se a isso a desproteção do setor do livro para essa entrada avassaladora de capitais e empresas transnacionais, que a Amazon representa como ninguém: nunca houve no país uma política que fosse além da isenção de impostos para o setor, algo que realmente direcionasse o enraizamento de uma distribuição nacional e favorecesse o livro e a leitura por todo o país. Basta lembrar que só nos anos 2000 conseguimos concluir um programa chamado “uma biblioteca em cada município”.

O Plano Nacional do Livro e Leitura, federal, e planos estaduais e municipais – destaco especialmente o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca de São Paulo – preocupam-se com a economia e com a compreensão de que o livro, sem prejuízo de seu caráter cultural, que dá sentido a sua existência, é também uma mercadoria. Mas será que os economistas preocupam-se com o livro em tais termos? Os economistas liberais encaram o livro como uma mercadoria a mais, que tem de sobreviver apenas por suas “belas” qualidades; já os mais intervencionistas veem o livro como uma mercadoria menor, porque gira poucos recursos, quando comparada com qualquer outra. Ou seja, o livro é um setor cuja singularidade não merece ser estimulada.



Fonte: Revista Samuel

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