sábado, 11 de fevereiro de 2017

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA BUCHADA DE BODE

Buchada de bode. Tem que ser de bode. Nem de cabra pode. Não sei se tem noutro lugar do Brasil assim tão frequente além do Nordeste. Não deve ser difícil achar. Nordestino gosta de se espalhar e levar suas tosqueiras. Se você não é daqui, diz aí, já comeu? Se já comeu, qual a sensação? Uma bola de carne que quase cabe na mão. Definição rápida e exata: bucho costurado com picado dentro.

Por Roberto Menezes

Divulgação

"Sonho que um dia um astronauta cearense cortará uma buchada ao vivo pra vinte bilhões de pessoas, direto da estação espacial na órbita de Júpiter" Sonho que um dia um astronauta cearense cortará uma buchada ao vivo pra vinte bilhões de pessoas, direto da estação espacial na órbita de Júpiter. Não lembro a primeira vez que ouvi falar de buchada. Era pirralho, bem pirralho. Desde que me entendo por gente, a imagem de uma buchada sempre me encabulou. Lá em casa, a gente comia muita bizarrice: preá, coelho, tanajura, rã, mas buchada não. Nem sei por que. Verdade, vou perguntar isso a mamãe (Liguei pra ela, “É o quê, Beto, tá bebo, é?”).

Só fui comer buchada mesmo com dezesseis anos. Na feira de Jaguaribe. Gostei da aventura. Me senti naquele banquete de Indiana Jones e o Templo da Perdição. Devorei a minha, comi até a linha. Pedi outra, mesmo destino. Depois, eu e os outros meninos devoramos o resto que as meninas deixaram. Acabamos num instante com dois litros de coca. Almoço ligeiro, tinha aula de tarde. Aula uma da tarde, já viu, né? Empanturrado. Suadeira. Turica. Aguentei até três e vinte, tive que sair correndo antes do intervalo. Acabei com o banheiro da Escola Técnica. Fui pra casa me aguentando, dois ônibus, com uma cólica da porra. Tive noite de rei. Meu estômago não tava preparado pra algo tão forte. Pirose, azia e o diabo a quatro. Pra aprender a respeitar a buchada.

Do bode se aproveita até o berro. Quem é do Sertão que nunca ouviu isso? É bem coisa que Ariano Suassuna diria. Poderia bem completar assim , “me levaram pra comer em Paris, ô Jesus do céu, não teve um prato que batesse uma boa buchada da minha Taperoá.

Toda buchada é boa, menos as péssimas. Comeu gostou, não gostou já era. Não tem esse negócio de ir se acostumando feito açaí, não.

A buchada é a união perfeita entre a gastronomia e o corte e costura. Quem faz buchada pelo menos deve saber fazer almofada. Qual a forma do corte do bucho? Triangular, redondo ou quadrado? E em que momento se corta? Com o bucho cru ou cozinhado? É fácil perceber como essas duas artes se unem, quase um ateliê de costura com panela e fogão. Bucho não encolhe igual a algodão ou poliéster, a pessoa tem que ter pós-graduação em cortagem pra se meter a costurar bucho de bode. Nem imagino como é que são feitos os cálculos de quantas buchadas… Quantas buchadas dá um bode?

Buchada abusa?

Aí vem o cara chato. Aquele mesmo que tem preguiça de comer caranguejo, “muito trabalho pra pouca carne”. Aí ele vem com a ladainha, “A buchada é até boa, mas a linha atrapalha geral”. Chatice da porra. Não tem pra onde, toda buchada tem que ter linha. Sem essas invenções de pesquisador do CNPq. Sem a linha volante brocadora, é só bucho enrolando sarapatel. Não dá liga. Magia zero.

É que dá raiva. Ninguém fala da buchada em canto nenhum. Não é uma coisa que na hora da morte se diga, “meu deus, vou morrer e nunca comi uma buchada”. Ela tem que ser introduzida no dia a dia do brasileiro. Mostrada em cadeia nacional, assim, na cara da dona de casa. Só pra você ver, já viu William Bonner no Jornal Nacional de sábado terminar com “Boa Noite e cuidado com a buchada”? Não, né? É foda. Saber que a buchada nunca vai virar hashtag no twitter, nem ser cogitada pra botarem como tema do Enem. Precisamos pensar numa reparação histórica pra com a buchada. Vê se Machado de Assis, Drummond ou Clarice Lispector escreveu uma linha sequer sobre a buchada.

Sonho que um dia, sim, vai chegar esse dia, o dia em que um astronauta cearense cortará uma buchada ao vivo pra vinte bilhões de pessoas, direto da estação espacial na órbita de Júpiter. Gravidade zero. Pimenta no talo de ardida. Tudo ao som, ao som de “A cura da homeopatia pelo processo macrobiótico ”, do maior compositor que esse Brasil já teve.

Fonte: LiteraturaBR

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