sábado, 11 de fevereiro de 2017

A QUESTÃO DA EXPLORAÇÃO SEXUAL INFANTIL

Ex-secretária de assistência social de SP comanda ONG contra exploração sexual, trazendo índices assustadores sobre Brasil.

Por Lilian Milena, do jornal GGN

Luciana Temer, professora da Faculdade de Direito da PUC-SP e ex-secretária municipal de Assistência Social de São Paulo, destacando-se pela execução do programa “Braços Abertos” na gestão de Fernando Haddad, foi convidada pelo empresário Elie Horn, dono da incorporadora Cyrela, para coordenar o Instituto Liberta, organização não-governamental recém-criada para combater a exploração sexual de crianças e adolescentes.

Em 2015, ao lado da esposa, Suzy Horn, o empresário anunciou que haviam decidido doar, em vida, 60% da fortuna para programas sociais. Eles se tornaram, também, os primeiros brasileiros incluídos no “The Giving Pledge”, programa criado pelos empresários Bill Gates e Warren Buffet, em 2010, uma espécie de clube que reúne ricos dispostos a investir, pelo menos, metade de suas fortunas em causas sociais. Para fazer parte do grupo é preciso ter um patrimônio igual ou superior a US$ 1 bilhão.

Em entrevista ao programa online Na sala de visitas com Luis Nassif, Luciana defendeu a importância do trabalho com foco na exploração sexual de crianças e adolescentes. Segundo dados das Nações Unidas (ONU), a cada hora 228 crianças são submetidas a esse tipo de trabalho na América Latina e no Caribe, com destaque para o Brasil que, na região, ocupa o primeiro lugar.

Todos os anos 500 mil crianças, entre sete e 14 anos, são vítimas da indústria sexual no país. Dado que, na avaliação de Luciana, é subestimado:

“A parcela de casos denunciados é muito pequena. Então nós achamos que esse número é muito maior”, disse, completando que o tema da exploração sexual de seres humanos tão jovens é ainda pouco discutido no Brasil.

“Fala-se muito em abuso, que é um conceito que todos entendem: o abuso é, normalmente, intrafamiliar. Enquanto que a exploração é, na verdade, o uso da criança e do adolescente para fins sexuais com remuneração. Então, quando uma pessoa vê uma menina com 16 ou 15 anos de shortinhos se oferecendo fala: ‘ah, a menina está querendo’. Essa é a mentalidade, mas essa menina começou aos sete anos”.

Ao ser questionada se o abuso sexual está concentrado na região Nordeste, a coordenadora do Liberta destacou que esse tipo de abuso ocorre em todo o país, não apenas nas rotas turísticas, apontando que a região Sudeste ocupa a segunda colocação no número de casos.

Na sua avaliação, a iniciação da vida sexual de crianças e adolescentes antes da maturidade física e intelectual deve ser contabilizada como uma grande “maldade” na vida desses jovens.

“[Eles] perdem qualquer possibilidade de se sensibilizar com a questão sexual e, isso, é uma morte de uma parte da vida”, lembrando que, ao debater o tema na concepção do Instituto, com Elie Horn, ele comparou esse nível de exploração à mutilação genital feminina, realizada em muitos países da África e do Oriente Médio, só que a mutilação exercida sobre as jovens mulheres aqui é mental.

“Essas meninas acabam engravidando muito precocemente, ficam doentes muito precocemente. Fatalmente abandonam a escola e têm filhos que vão ser fruto dessa lógica. Só tem uma forma de romper esse ciclo de miséria que é a educação. Mas se essa menina vai para este meio e abandona a escola, pronto! Esta criança está perdida”, explicou Luciana.

Qual o perfil desses meninos e meninas explorados sexualmente? Segundo a ONU são, na maioria, pobres, negros e indígenas, fruto de lares desestruturados e jogados neste mercado de trabalho para melhorar a condição de vida. Muitos têm histórico de violência doméstica, sustentam algum vício ou a necessidade de atender algum apelo consumista.

Luciana disse que o Instituto Liberta iniciará uma campanha massiva nos meios de comunicação em âmbito nacional. A organização assinou parcerias com outras entidades de proteção da criança, entre elas a Child Fund Faundation, Abrinq e UNICEF, além do Ministério da Justiça por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente.

“Nós acreditamos que o primeiro movimento é justamente acordar a sociedade para um problema que ela pensa que não existe”, completou.

Assista abaixo trecho da entrevista de Luis Nassif com Luciana Temer:

 Fonte: jornal GGN

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