segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

QUANTO MENOR A AUTOESTIMA, MAIOR É A NECESSIDADE DE DAR A ÚLTIMA PALAVRA EM TUDO

Há cerca de 2.500 anos, o filósofo grego Sócrates foi um dos expoentes da época clássica e, entre outros pensamentos de enorme relevância até hoje, tornou-se célebre com a famosa frase: “tudo o que sei é que nada sei”.

De fato, Sócrates tinha tudo para realmente nada saber. Afinal, naquela época não existiam jornais e revistas, de onde se tomam as notícias como “verdades absolutas e inquestionáveis”.

Outro ponto importante a se considerar é que na Grécia socrática não existia a internet. Porém, o fato que merece destaque é que não havia o maior veículo de informação, ou, muitas vezes, “deformação”: o Facebook. Desse modo, sem poder contar com jornais, revistas, internet e, principalmente, o “Face”, tudo o que o “pobre” do Sócrates só podia mesmo dizer é que “nada sei”.

Outros gregos, como, por exemplo, Platão, Aristóteles e Xenofontes, também se arriscaram a dizer “algumas coisinhas”, mas esses pensadores também não tinham acesso a tudo aquilo disponível nos dias atuais e que muitos julgam indispensável.

Convém observar que os filósofos da era clássica eram “meros pensadores” e, atualmente, as pessoas “evoluíram” para “postadores”. Mais do que nunca, estamos vivendo conforme a “Alegoria da caverna”, de Platão. E, envoltos no interior de sombras e escuridão, existem aqueles que insistem em impor ao mundo todos os seus “achismos”, com autoridade de “especialistas” que se consideram, sendo intolerantes com opiniões divergentes.

Tomam-se as “imagens projetadas” como pura expressão da verdade e as espalham o mais depressa possível, para alardearem que “sabem de tudo” antes de qualquer um. Movidos pela ditadura da velocidade e da ostentação de “bem informados”, eximem-se de algo que os filósofos fartavam-se; Reflexão. Enquanto os pensadores buscavam a verdade, e os de bom senso ainda continuam a procurá-la, muitos assumem a postura de já terem encontrado convicções para inflarem o ego, de acordo com a sua conveniência.

Numa época de tanta intolerância e fanatismo, o tal do Facebook é um canal essencial para quem se dedica a esse fim. Nele as pessoas também exacerbam seu narcisismo, além de utilizá-lo, inclusive, como sendo uma espécie de terapia, onde os indivíduos exercitam seus desejos, ou dão vazão às suas mais profundas frustrações. Quanto menor a autoestima, tanto maior a necessidade de postagens e de dar a última palavra em tudo.

Podemos concluir que, se os conceitos daqueles filósofos gregos ainda permanecem, mesmo depois de mais de 2.500 anos, embora eles “nada soubessem” e sem as Redes Sociais, imaginem só o quanto poderá durar esse “festival de genialidades”, em profusão no Facebook!

E, no futuro, quando os historiadores se depararem com o estudo das características deste nosso momento, em que muitos pensam que “tudo sabem”, constatarão que a vaidade é um atalho capaz de levar à insignificância. Poderão se deparar, por exemplo, uma famosa frase de Nelson Rodrigues: “invejo a burrice, porque é eterna”.

Assim, na ânsia de verem-se imortais de qualquer maneira, em razão de privilegiarem mais a quantidade que a qualidade, de certa forma, muitos poderão sentir-se “eternizados” devido ao conteúdo da maioria de suas postagens.

Por Paulo Cesar Paschoalini, Portal Raízes

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