quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A REPÚBLICA, A MORTE DO IMPERADOR E AS MUDANÇAS NO PAÍS

A 15 de novembro de 1889, soou o golpe republicano que depôs o soberano D. Pedro II. No exílio, ele viveria dois anos penosos e tristes. Tendo rejeitado os 5 mil contos que o governo republicano lhe oferecera, ficou em sérias dificuldades financeiras. Ao chegar a Lisboa, perdeu sua esposa, a imperatriz D. Teresa Cristina a 28 de dezembro de 1889. Ficou profundamente abalado: “Ninguém imagina a minha aflição! Somente choro a felicidade perdida de 46 anos. […] não sei o que farei agora. Só o estudo consolará a minha dor”, anotou, comovido, em seu diário. Muitos monarquistas e pessoas de relações próximas afastaram-se dele, depois da queda. Conta seu biógrafo, José Murilo de Carvalho que, com todos que o visitavam, recusava-se a discutir política brasileira ou restauração da monarquia. Enterrava-se nos livros para evitar o sofrimento.

Em outubro de 1891, hospedado no modesto hotel Bedford, em Paris, viu agravar-se seu estado de saúde. Uma pneumonia atacou os pulmões. Os médicos nada puderam contra a moléstia. No dia 2 de dezembro, completou 66 anos acamado e sem comemorações.  Entrou em agonia na noite do dia 4 e morreu aos 35 minutos do dia 5.
        
A bela Infanta D. Eulália, filha da rainha Isabel II de Espanha e do Duque de Cádiz, viveu com lucidez o fim do Imperador brasileiro e o registrou em suas Memórias:

“…. Eu tinha voltado a Paris, a fim de passar alguns dias junto à minha mãe, quando minha prima Izabel mandou me prevenir de que seu pai estava passando muito mal. Eu era a única pessoa de minha família que se encontrava, então, em Paris. Saí imediatamente e horas depois estava junto do venerando imperador […]. Quando D. Pedro II se extinguiu, estávamos junto dele apenas a princesa Izabel, seu marido e eu. Tínhamos passado toda a noite velando por ele. Minha mãe se retirara ao anoitecer, e extenuada pelas emoções, porque dedicava profunda afeição ao moribundo.
      
Essa afeição foi, no dia seguinte, causa de um penoso incidente. Tínhamos acabado a toilette do morto, quando minha mãe chegou. Para que ela não tivesse má impressão, eu me apressei a tirar um lenço que havia passado em torno de seu rosto. Assim como as longas barbas estendidas sobre seu peito, ele apresentava uma fisionomia tão serena que, pouco depois, os assistentes, alguns fidalgos brasileiros e franceses que tinham acudido à triste notícia ficaram estupefatos ouvindo a rainha Izabel II, sempre tão comedida em suas expressões, protestando, bradando que o imperador estava vivo, que não podia estar morto, com uma fisionomia tão tranquila, que íamos enterrá-lo vivo. Foi preciso a presença de dois médicos de sua confiança para convencê-la da dolorosa verdade”.
      
Foi o fim do Imperador, mas, fechou-se, também, uma página da história do Império Brasileiro. Os anos posteriores à proclamação da República seriam marcados por um turbilhão de mudanças. A europeização, antes restrita ao ambiente doméstico, transforma-se agora em objetivo – o melhor seria dizer “em obsessão” – de políticas públicas. Tal qual na maior parte do mundo ocidental, cidades, prisões, escolas e hospitais brasileiros deveriam passar por um processo de mudança radical, em nome do controle e da aplicação de métodos científicos; crença que também se relacionava com a certeza de que a humanidade teria entrado em uma nova etapa de desenvolvimento material marcada pelo progresso ilimitado.
       
Mas, muito pelo contrário, a pobreza estava em toda a parte e as grandes reformas urbanas que tentavam transformar, por exemplo, o Rio de Janeiro em Paris, não abafavam certo mal-estar de viver. As mudanças políticas não atingiram a sociedade como um todo. Só as elites se beneficiaram.

Texto de Mary del Priore. “Histórias da Gente Brasileira: Império (vol.2), Editora Leya. Com lançamento prevista ainda para este mês.

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