segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SENSÍVEL OU RACIONAL?

Obedecer às importantes fases da vida faz uma pessoa ser completa

É um dilema: qual é o limite entre a sensibilidade e a racionalidade? Não falamos aqui daquela sensibilidade que significa decidir só com o coração, o que é burrice. Falamos daquela que é sentir o que está à sua volta, perceber a vida e não ser somente força e virilidade sem controle, sem levar em conta as outras pessoas, o que se dá a elas e se recebe delas. Especialistas e leigos vivem pesquisando o assunto. Mas houve um cara que soube passar o recado sobre isso, embora não totalmente compreendido por muitos. Seu nome era Antoine de Saint-Exupéry, que transformou essa antiga dúvida em livro. O título você conhece muito bem:

O Pequeno Príncipe.

Ok, alguém aí torceu o nariz e pensou que é um conto para crianças ou mocinhas. Mas a história com desenhos bonitinhos é muito mais que um “livro de miss”. Acontece, meu caro, que esse escritor francês também foi aviador militar na época da Segunda Guerra Mundial. Ver as atrocidades que atingiram seu continente e lutar por seu país mexeram muito com ele, que decidiu ser piloto desde a infância e, por isso, ele precisava procurar algo melhor dentro de si.

Perdão pelos spoilers, mas a obra já tem mais de 70 anos e já deu tempo de ler, não é? O autor conseguiu pôr a si mesmo em dois personagens: o piloto que faz uma aterrissagem forçada num deserto e o menino alienígena com roupa de príncipe que ele encontra naquelas dunas. O garoto é comandado pela emoção e inexperiente, embora bom e responsável. Aprende sobre a vida com quem encontra em sua viagem pelo espaço, que veio dar na Terra. O homem, embora queira cuidar daquela criança, volta e meia está mesmo é preocupado em sobreviver, consertar o avião e sumir daquele lugar, pois tem suas obrigações.

Só que, com o convívio, um aprende a enxergar as nuances da vida do outro. O garotinho passa a ter noções mais sérias e racionais do que o cerca, entende melhor o que é ser responsável por ele e pelos entes queridos; o piloto tem de volta a percepção da beleza na simplicidade dos dias, aquele esquecido jeito de ver tudo com curiosidade, deixa cair um pouco daquela casca árida e dura que adquiriu.

E tudo segue assim até que o sujeito consegue consertar o avião. Mas, antes de decolar, cadê o principezinho? Sumiu. Decidiu que sua viagem chegou ao fim. O que muitos interpretam como a morte de uma criança até é isso mesmo, só que de forma figurada. Como o Pequeno Príncipe e o piloto eram um só, finalmente aquele cara entendeu que era preciso deixar as inseguranças, manhas e inexperiências de menino para trás. O garoto morria para nascer o homem. Só que nem por isso o adulto precisava perder a sensibilidade de notar a vida à sua volta e nele mesmo.

Exupéry fala de equilíbrio. A historinha não está tão longe de você. Quantos caras se entregam totalmente ao trabalho, até com ótima intenção, mas não dão a atenção ideal à esposa, não percebem o desenvolvimento dos filhos, estão cansados para raciocinar sobre a fé, largam a saúde de lado? E se afastam da ética e do seu papel social. Por outro lado, quantos vivem eternos contos de fadas e não são responsáveis, são “moleques grandes” e não homens de verdade?

Por essas e outras, aquele livrinho setentão permanece um best-seller. E ele veio de um cara que, embora enfrentasse batalhas aéreas (e tenha morrido em ação), parou um pouco durante uma fase da guerra mais sangrenta da história para deixar à posteridade um recado: seja homem, mas não a ponto de se tornar somente um ser frio e calculista. Deixe muitas coisas de menino para trás, mas conserve com você a tão necessária dose de humanidade – que, afinal de contas, é adquirida na infância.

Por Marcelo Rangel / Edição 1270 Folha Universal

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