quarta-feira, 10 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS: APOGEU E O CREPÚSCULO DO FUTEBOL FEMININO NOS JOGOS OLÍMPICOS

O torneio de futebol feminino dos Jogos Olímpicos é um momento único e especialíssimo para as mulheres que se dedicam à modalidade dentro de campo. É a competição mais importante e mais esperada pelas atletas desde que sua participação foi inserida nos Jogos, em 1996.

Por Lu Castro

Desde então, é possível observar a maneira como a população brasileira se comporta em relação ao futebol das mulheres nesta competição em específico. Do torcedor à imprensa, o assunto ocupa espaços e manifestações pontuais, sempre em comparação com o futebol apresentado pelo selecionado masculino. Isso nos dá uma base bastante concreta de como o brasileiro – não – enxerga a modalidade.

Fazendo um comparativo com a participação do futebol masculino – sim, é necessário – e com dados absolutamente simples, temos o seguinte cenário:

Masculino: 1ª participação em Helsinque, 1952. 1ª melhor classificação: Montreal, 1976 – 4º lugar. Medalhas de prata: 3 (1984, 1988 e 2012) – Medalhas de Bronze: 2 (1996, 2008)

Feminino: 1ª participação em Atlanta, 1996. 1ª melhor classificação: Atlanta, 1996 – 4º lugar. Medalhas de prata: 2 (2004, 2008)

Com mais apelo e comunicação, em razão de sua prática ser mais ampla e mais incentivada, o futebol dos homens é sempre mais cobrado por todos. E não há como ser diferente. Salário maior, programas de rádio e tv totalmente dedicados ao assunto, jornais com equipes de setoristas para cada clube e uma confederação que oferece tudo de primeira classe para os homens do futebol. O retorno, pelo investimento, deveria ser maior. Mas não é. Não pelo menos nos últimos 20 anos.

Em uma Olimpíada disputada pela primeira vez em solo sulamericano, o selecionado masculino brasileiro não fez cócegas nos números e nem no torcedor. Em 2 jogos, exibições pífias, zero gols, muita marra, nenhuma liderança e um país inteiro com a corneta ligada no amplificador.

A cobrança é justa, afinal, os valores recebidos pelos homens do futebol extrapolam qualquer senso de realidade do trabalhador brasileiro. E, me desculpem os usuais argumentos como ‘a vida curta no esporte’, por exemplo, mas as cifras são fabulosas, desproporcionais e imorais.

E quando a seleção dos homens não corresponde à expectativa do brasileiro – e à fortuna investida –, especialmente durante sua campanha em Jogos Olímpicos, é comum que comecem as comparações com o futebol das mulheres. O show de horrores protagonizado pelos “heróis” da camisa amarela no Estádio Mané Garrincha na noite deste domingo, nos deu a medida exata da diferença no tratamento entre os gêneros e a bizarrice em termos de comportamento do brasileiro em estádios de futebol.

Cabe um rápido desvio no mote para falar do estúpido uníssono de “ooooo bichaa” a cada cobrança de tiro de meta do goleiro iraquiano. Melhor avisar ao torcedor que “bicha” não é ofensa, não é xingamento e só passa atestado de homofóbico

Fora as calorosas vaias especialmente direcionadas ao ídolo da era do jogador de condomínio, ficou clara a manifestação do público ao pedir pela Marta. Memes, charges, frases de efeito, apresentador fazendo defesa das minas, análises muito pertinentes rolando em programas esportivos, capas de jornais estampando recordes e atuações primorosas de nossas atletas…Ah, o mundo perfeito!

Pois bem, este é o apogeu da modalidade em terras brasileiras.

A enaltação do futebol coletivo apresentado, as atuações irretocáveis de Marta, Formiga, Cristiane a artilheira dos Jogos Olímpicos entre mulheres e homens~, Bia Zaneratto e Fabiana e a campanha com 8 gols marcados em 2 jogos diante de adversárias com tradição futebolística, foram suficientes para provocar o torcedor acostumado às exibições masculinas de futebol no Brasil.

“Jogue como mulher!”

“Tira o Neymar e coloca a Marta!”

E até Galvão Bueno se enfureceu, segundo comentários nas redes sociais: “Neymar é nada perto de Marta”.

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