segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRIANÇAS CASADAS

Para fugir da pobreza, da má imagem pública ou mesmo por conveniência da família, menores se casam formal ou informalmente em todo o Brasil, segundo pesquisa de cunho social

Os números espantam: o Brasil tem algo em torno de 90 mil crianças de 10 a 14 anos casadas formal ou informalmente, principalmente meninas. Isso é o que mostra o estudo Ela vai no meu barco, levantamento realizado pelo Instituto Promundo, organização não governamental que pesquisa relações de gênero. Quando a faixa etária é de 15 a 17 anos, a quantidade impressiona ainda mais: são 567 mil casados.

O nome do trabalho se deve à fala de um dos entrevistados, que passa a ideia de que, se a menina se casou com ele, vai ter que seguir suas regras e seu destino, não restando a ela muita (ou nenhuma) escolha. Os motivos para essas uniões são arranjos entre famílias, gravidez indesejada, antecipação do casamento para que a filha se relacione com um só homem e não fique “falada”, pobreza na família e necessidade de outro provedor, desejo de homens se casarem com moças mais jovens e falta de interesse profissional ou educacional delas – que veem no casamento uma forma de sair da casa dos pais.

A pesquisa concluiu que a idade média das jovens esposas é de 15 anos, enquanto os maridos são em geral nove anos mais velhos. Os Estados em que os matrimônios mais ocorrem são Maranhão e Pará.

A maioria das uniões é consensual, mas marcada pela informalidade – não registrada em cartório. Uma das entrevistadas relatou que sofria maus-tratos na casa paterna e que viu no casamento uma fuga plausível. Outra garota, aos 13 anos, se uniu a um homem de 36 anos, por medo de um destino pior se não se casasse com ele: “Acho que estaria no mesmo caminho que minha irmã, que está quase na prostituição”, afirmou.

Muitas ficam tão voltadas para a vida doméstica que abrem mão de amizades, estudo e trabalho e dedicam-se apenas ao marido e aos filhos.

Se os números que você leu no começo do texto espantam, a situação impressiona ainda mais quando analisada sob outro ângulo. O Brasil é o quarto país em escala mundial quanto ao número de mulheres entre 20 e 24 anos que se casaram antes dos 18 anos: são 3 milhões (36% do total de casadas nessa faixa etária).

Pela lei brasileira, a idade legal mínima para o casamento formal é 18 anos para homens e mulheres. Com 16 anos a união é possível se ambos tiverem o consentimento dos pais ou responsáveis legais. Outra exceção que permite a um menor de 16 anos se casar é em caso de gravidez.

A preocupação dos pesquisadores é com os resultados negativos das uniões de pessoas tão jovens, como evidenciado no estudo. Entre eles estão a gravidez precoce e suas consequências físicas e psicológicas tanto para os pais quanto para a criança, atraso ou até mesmo evasão escolar, controle exagerado sobre a liberdade das moças, exposição à violência do parceiro, diferenças de comportamento entre os cônjuges por causa das idades diferentes e atitudes discriminatórias com as meninas por parte da comunidade.

A pesquisa deixa claro que o casamento precoce não é só um fenômeno rural, como muitos tendiam a pensar, mas bem frequente em centros urbanos.

O estudo tem muitos méritos, mas não é preciso ser um estudioso para concluir que se casais adultos que não pensam bem sobre o casamento pretendido podem sofrer consequências lamentáveis, o que dizer de um ser humano cuja mentalidade ainda está em formação?

Sem contar que, mesmo que o matrimônio não seja motivado pela pobreza e ou pela falta de perspectivas citadas anteriormente, quanto mais jovens os “noivos”, mais provável é que se deixem dominar pelas emoções na hora da escolha e não pela razão. Mas, ironicamente, esse é um erro que muitos cometem independentemente da idade, embora seja mais comum entre os mais jovens. Lembre-se: o casamento continua a ser uma decisão que precisa de bastante planejamento, orientação e maturidade.

Por Marcelo Rangel / Foto: Fotolia/edição 1271 Folha Universal

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