quarta-feira, 15 de junho de 2016

É TEMPO DE CRISE, E O AMOR?

A banalidade do afeto e das relações não está desconectada da crise que vivenciamos

 por Andréia Roseno*

Estamos vivendo uma crise política, social e econômica. Nesses momentos de crises a humanidade é questionada a rever sentimentos, valores e princípios. A crise está instaurada na reprodução das relações sociais. Essa sociedade capitalista-racista-patriarcal banalizou a vida. É a mercadoria que tem valor. Por isso, a sociedade do consumo vem criando datas mercadológicas convertidas de afeto, os exemplos são muitos: o dia das mães, namorados, pais, natal etc. Como diz o dito popular o que é, o que é, a vida hoje?

A banalidade do afeto e das relações não está desconectada da crise que vivenciamos. Todos os dias somos bombardeados de notícias que nos provocam estarrecimentos. Essas notícias nos impactam, sobretudo, pela crueldade. A lógica dessa sociedade é reproduzir a naturalização desses acontecimentos. Existe uma seletividade intencional que, por vezes, nos permite classificar com menos ou mais revolta e indignação os acontecimentos diários.

Essa mesma lógica também define as relações afetivas como se elas não fossem social e historicamente construídas. Para muitos os sentimentos são autoimunes. Doce ilusão, os sentimentos são construídos conforme os padrões existentes, ou seja, “os gostos” são embasados nas “sutilezas” do racismo e do machismo.

Desse modo a solidão da mulher negra é um sintoma social dessa sociedade perversa e não uma incompetência individual em "arrumar um alguém". O estigma de erotização e objetificação da corporeidade da negritude é um traço colonial que está arraigado na efetivação das relações e se complexifica na atualidade. Mas, por que a solidão das mulheres negras não nos atinge? 

No Brasil e no mundo, é recorrente as mulheres que denunciam que foram estupradas pelos próprios maridos, no entanto, a cultura do estupro só é evidenciada quando mais de 30 homens estupra uma única mulher.  É forte a ideia equivocada do “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Já no século XXI muitas mulheres nunca sentiram um orgasmo.

É preciso pensar se é possível comemorar o dia dos namorados, quando se analisa profundamente os dados oficiais da violência direta ou indiretamente nas relações afetivas e não só as heteroafetivas.

Os fatos chocantes que ganham destaque nas grandes mídias e na internet é a ponta do iceberg. É estarrecedor pensar que 32 homens estupraram 1 mulher. É horripilante pensar que um atirador entrou numa boate gay e matou 50 jovens ou que 5 jovens negros tomaram 120 tiros ou que, em Caarapó (MS), houve um confronto entre indígenas e latifundiários.

Esses são os casos que vieram a público, mas existe os que são invisibilizados que não ganham destaque nas manchetes. Mas, por que esses não nos causa impacto?  É possível humanizar uma sociedade capitalista-racista-patriarcal?

Na verdade, se está dando cotidianamente doses homeopáticas de barbárie às pessoas e isso também está intrínseco nas relações afetivas.

Desconstruir paradigmas não é fácil diante do recrudescimento das forças conservadoras. As pessoas têm hoje certa liberdade de expor seus preconceitos. Inclusive esse não é um problema da burguesia institucional. Em muitas vezes, o efeito dentro da classe trabalhadora é de correia de transmissão, com o caso do estupro no Rio de Janeiro que tem o mesmo leito do golpe machista dado contra Dilma Rousseff.

Estamos em crise e é preciso tirar lições desse período. Temos que pensar nas lutas estruturais, colocar toda a nossa força no #ForaTemer e ponto. Mas estejamos em alerta para as lições, é necessário que ao lutar por questões estruturais também se busque romper com a construção de sentimentos, valores e princípios que nos forma individualmente. Para a classe trabalhadora essa desconstrução deve ser pedagógica e constante. Novas mulheres e novos homens são possíveis se tivermos disposição para nos questionarmos e não nos assustarmos com as respostas.

*Andréia Roseno é militante da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar de Minas Gerais (FETRAF-MG) e da Consulta Popular.

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