terça-feira, 31 de maio de 2016

IMAGENS DA MULHER NA MÍDIA

Mídia reforça rótulos e alimenta violência contra a mulher

O caso da adolescente de 16 anos estuprada por 33 homens no Rio de Janeiro, com direito a fotos publicadas nas redes sociais, revelou acusados e suspeitos indiferentes ao crime. A naturalização da violência contra a mulher e os direitos humanos em geral tem relação com a agressividade e inadequação de conteúdo da programação e da propaganda nos principais meios de comunicação do Brasil. À mídia dominante interessa a reprodução de rótulos e a espetacularização.

Programa Pânico na TV mantém o padrão televisivo de exibir as mulheres seminuas.

A jornalista Renata Mielli, coordenadora-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), reforçou que há grande contribuição dos meios de comunicação na reprodução de uma cultura machista e discriminatória no país. Citou que na maioria dos lares brasileiros, principalmente em segmentos mais pobres, a mídia é o meio de formação da subjetividade. É entretenimento e é também fonte de formação.

“Como não tem escola de período integral no Brasil, as crianças, adolescentes, ficam em casa assistindo à televisão, que reproduz valores machistas da sociedade. É um processo de mercantilização da mulher, que é transformada  em objeto e usada para vender objetos. Se é um objeto, não merece respeito”, avaliou Renata, traduzindo o sentimento que esse bombardeio midiático provoca na população.

Ela acrescentou que 80% dos produtos vendidos por meio de comerciais usam a imagem da mulher, sempre com apelo sensual e erotizado para vender cerveja, alimento, roupa. “Tivemos os programas da Xuxa, com a figura das paquitas, em que as crianças também reproduziam esse comportamento sensualizado. Passando pelos programas de auditório, como banheira do Gugu, Pânico na TV. E esse padrão continua. As mulheres estão sempre com biquínis ou seminuas”, exemplificou.

Estupro ao vivo e naturalizado

Renata mencionou dois exemplos que reforçam a cultura do estupro no Brasil, que não merece nenhuma atenção responsável da mídia a não ser o da espetacularização. Ela citou o estupro transmitido pela TV fechada pelo programa da TV Globo Big Brother, em 2012. O caso foi arquivado.

A jornalista recuperou ainda as declarações feitas em 2015 pelo ex-ator Alexandre Frota, que recentemente se reuniu com o ministro interino da Educação. Naquele ano, Frota admitiu em um programa de auditório, de maneira debochada, que transou com uma mulher sem consentimento dela. A declaração arrancou risos da plateia e do apresentador Rafinha Bastos. Por outro lado, gerou inúmeras ações de cidadãos comuns na justiça.

“Tratar essas situações como banais, como foi o caso da vítima do Big Brother, em que se colocou a culpa nela, e também ignorar a gravidade dessas declarações em que se confessa um estupro, é naturalizar as situações de violência contra a mulher.”

Direito à comunicação

Tomar consciência de que a comunicação é um direito foi um dos pontos defendidos por Renata para combater a onipotência dos meios de comunicação. Segundo ela, nenhuma emissora de televisão brasileira tem uma ouvidoria, ou seja, se o telespectador quiser se manifestar terá que ser através de representações no Ministério Público, por exemplo. Prática, aliás, que Renata recomenda para todo cidadão.

“A sociedade precisa entender que tem o direito de se manifestar. As TVs abertas são concessões públicas outorgadas pelo Estado, através de licitação. É preciso que haja a contrapartida, como observar os direitos humanos e os espaços de diálogo com a sociedade. Se não há, é preciso se manifestar”, explicou.

Classificação indicativa por faixa etária

Renata defendeu o fortalecimento da classificação indicativa por faixa etária como mais um instrumento que pode colaborar com a promoção de uma cultura menos agressiva do ponto de vista dos direitos humanos.

A classificação indicativa por faixa etária, que tem sido combatida pelas emissoras de televisão, determina os períodos da programação que são adequados para as diversas faixas etárias.

“Por exemplo, a programação para quem tem 14 anos está vinculada a determinado horário. Essa vinculação é um instrumento de defesa da família porque determina que a emissora veicule um programa adequado para aquele horário”, complementou Renata.

“Sem isso, a emissora pode colocar às três da tarde um filme com cenas de sexo explícito e de violência extrema apenas indicando que é proibido para menores de 18 anos, mas tá passando as três da tarde. Quem é o adulto que estará em casa para dizer se o o adolescente e a criança podem ou não assistir?”, questionou.

Texto de Railídia Carvalho, no Vermelho


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