quarta-feira, 25 de maio de 2016

GERAÇÃO CANGURU: FILHOS QUE NÃO DEIXAM O NINHO

Cada vez mais comum, entenda o fenômeno que domina a nova geração de jovens, adultos e pais

Muito se fala da “geração canguru”, aqueles adultos que, com ou sem condição financeira para sair da casa dos pais, preferem ficar. A alusão ao bicho é clara: o canguru fêmea mantém o filhote de até seis meses em uma bolsa externa que tem na barriga, até que ele tenha condições de “se virar”. Mas se até os canguruzinhos saem, por que muitos adultos permanecem?

E são muitos mesmo. Mais de 24% dos adultos brasileiros entre 25 e 34 anos ainda moram com os pais, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitos deles com situação financeira favorável. Não são raros também adultos um pouco abaixo ou muito acima da faixa etária citada que ficam sob o teto paterno e materno.

Há quem encare morar com os pais como algo transitório, apesar da acomodação ser uma forte tentação. Já outros correm de acomodar-se, pois acham que isso impede sua evolução.

O risco da “eterna adolescência”

Para um adulto morar com os pais nem sempre é positivo. Alguns pais também têm dificuldade de deixar o filho “sair do ninho”. A psicóloga Ana Paula Cavaggioni, de São Paulo, fala sobre o tema à Folha Universal:

Quais os prós e contras de morar com os pais depois de adulto?

De bom, os filhos podem investir mais em educação e formação profissional, mas correm o risco de se fixar em numa “eterna adolescência”, que trava o desenvolvimento natural.

Por que alguns ficam?

Pelas facilidades financeiras, sem dúvida. Sem arcar com as despesas de um lar, sobra mais dinheiro para investir no que achar melhor. E também por causa da casa limpa, roupa lavada, comida pronta, sentimento de proteção, medo de assumir responsabilidades, imaturidade...

Há algum tipo de risco psicológico?

A evolução e o desenvolvimento psíquico dependem de uma jornada. O bebê humano nasce totalmente dependente e vai, pouco a pouco, se desenvolvendo, com o auxílio de um ambiente adequado, para ser independente: aprende a se sentar, a andar, a falar, entra na escola, vêm os amores da adolescência e culmina no desejo de assumir as responsabilidades pela própria vida. Deixar a casa dos pais pode ser um ritual de passagem, uma separação do conhecido.

É um momento importante para avaliar suas próprias ideias, valores e necessidades e desenvolver os potenciais latentes. Permanecer na casa dos pais nessa faixa etária pode ser sinal de imaturidade e de fragilidade psíquica. Pode causar desmotivação, insegurança, adiamento e até paralisação da tomada de decisões fundamentais. A pessoa pode tornar-se despreparada psicologicamente para enfrentar os conflitos, as frustrações, perdas e privações. O casal corre o risco de se fixar numa falsa posição de pais de adolescentes, o que cria uma relação perversa de proteção que na verdade desprotege. Ter os filhos em casa pode servir como forma de manter uma sensação (ilusória) de posse da própria juventude que está se perdendo e que a sociedade atual tenta preservar a todo custo.

Os pais estão sempre errados ao dar guarida aos filhos adultos?

Dar guarida e contribuir para que o filho fique travado na dependência são coisas diferentes. É importante que os filhos saibam que podem contar com os pais nos momentos de crise ou de necessidade. Porém, são situações passageiras e devem ser tratadas como tal.

Como os pais devem se preparar para a síndrome do ninho vazio (quando ficam sem chão após a saída dos filhos de casa)?
Eles precisam manter vivos seus interesses, hobbies, atividades pessoais, cultivar amizades e aproveitar essa época para redescobrir seus próprios prazeres.

E, após a saída, como manter o laço entre pais e filhos?

Os pais não precisam estar colados aos filhos para garantir essa ligação simbólica, que é construída desde o nascimento. Os filhos que têm um laço de afeto, de segurança com seus pais, sempre se sentirão em casa.

Por Marcel Rangel / edição 1259 Folha Universal

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