segunda-feira, 11 de abril de 2016

SOBRE REPRESENTAÇÕES E SUTILEZAS RACIAIS EM CAICÓ

Por Eduardo A. Estevam Santos*

            Viver numa cidade interiorana ou de porte médio, segundo os padrões demográficos potiguar, não significada estar parcialmente distante dos padrões e dos sistemas de representações mais amplo, ainda que os espaços urbanos possuam suas particularidades e singularidade num interior de uma globalidade multifacetada. As relações entre os sistemas de representações locais e globais, neste caso, não são rígidas, herméticas, fechadas em si mesmo, como se fossem de um lado, os estabelecidos e do outro, os outsiders, como se apresentou na pesquisa de Nobert Elias.

Essas observações são para relatar minha percepção e experiência afetiva e emocional, enquanto um homem negro, baiano, na cidade de Caicó, a partir da minha particularidade racial, e tecer algumas reflexões a respeito.  
  
Na maioria das vezes em que sou abordado no cotidiano citadino e em meio a um diálogo banal, em que o meu interlocutor precisa saber, por curiosidade ou necessidade real de informação qual a minha ocupação, o mesmo se antecipa querendo acertar: Você é militar? Compreendo que existe na cidade um Batalhão do Exército de Engenharia de Construção, cuja presença militar é significativa. Mas, existem também, duas instituições federais de ensino superior, uma estadual e dezenas de unidades escolares.  Não sou militar, sou professor e não tenho nenhuma ojeriza pela carreira institucional. Essa referência pré-concebida para papéis sociais tão díspares não é totalmente neutra, isenta de valores, principalmente para uma cidade em que menos de 5% do seu quadro populacional (aproximadamente 70.000 habitantes) se reconhece como negra.

Mas que uma constatação etnográfica, faz-se necessário situar essas percepções no interior das representações raciais. As representações não são simples reflexo dos fatos, elas resultam por vezes, de escolhas, combinações e seleções em meio a uma herança histórica recebida.    Nosso ponto de partida é a nossa formação social fundada na ideia de raça, cujo efeito foi a produção de novos sujeitos históricos (negros, indígenas, mestiços). Desde então a raça passou a ser instrumento de classificação, hierarquização, organização, dominação. A partir do momento em que a raça passou a ser um critério de divisão do trabalho herdamos um imaginário de que determinados papéis e funções são exclusivamente de determinados sujeitos. Na América Colonial portuguesa tivemos uma distribuição racista do trabalho, baseada em critérios fenótipos, determinando a inferiorização  e subalternização a todos aqueles de pele escura, e numa quase exclusiva associação da branquitude com os postos de mando e papéis sociais mais valorizados. Essa associação naturalizada dos negros/negras com as ocupações anti-intelectuais é uma tradição representacional da escravidão. É essa força representacional que não me permite ser identificado “automaticamente” com atividades sistematicamente de formação acadêmica, e sim com qualquer outra que seja o seu contrário.

            Não se trata de uma percepção subjetiva, obstinada e de reivindicação de posição social, mas de colocar o problema nesses termos, da luta contra a des-historicização das forças históricas dos sistemas de representação racial. Mas do que oposições binárias, a colonialidade produziu ambivalências, o que torna o racismo um fenômeno complexo, que se apresenta de forma simbólica, material, insensível, invisível. A raça enquanto uma invenção da modernidade configurou as relações intersubjetivas mediadas pelas representações racializadas.

*Eduardo A. Estevam Santos é Doutor em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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