quarta-feira, 9 de março de 2016

PROTESTO NO FUTEBBOL

Torcedores corintianos mostraram sua insatisfação com os rumos políticos e com a manipulação do futebol pelos seus órgãos oficiais e pela Rede Globo

  Numa recente partida de futebol entre São Paulo e Corinthians, havia algo a mais em jogo do que somente o esporte.

Alguns torcedores não foram ao estádio só para vibrar por seu time. Nas arquibancadas corintianas, membros da torcida organizada Gaviões da Fiel desfraldaram faixas de protesto. Em uma delas pedia-se punição ao “ladrão de merenda”, referindo-se a Fernando Capez, deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa paulista, citado pela polícia como suspeito de envolvimento nas fraudes na compra de merenda para escolas do Estado. Na década de 1990, Capez, que era promotor de Justiça na época, ficou famoso por combater as práticas violentas das torcidas organizadas.

Mas outras faixas mostravam que o protesto ia muito além: uma delas citava a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Federação Paulista de Futebol (FPF) como “vergonhas” do esporte; outra pedia “ingresso mais barato”.

Havia mais uma em que estava escrito “Futebol, refém da Rede Globo”, acusando a emissora de manipular os horários dos jogos e as regras quanto ao que podia ou não ser levado pelos torcedores ao estádio – por exemplo, faixas como essas, que burlaram a revista da Polícia Militar aos frequentadores.

Muitos acusam a Rede Globo de ser responsável pelas partidas serem tão tarde da noite, às 22h, para que não firam a grade de programação dela. Até faz sentido, pois, nesse mesmo horário, em países mais desenvolvidos, os torcedores já estão em casa após o jogo, prontos para o repouso antes de mais um dia de trabalho e estudo – ajudados pelo transporte competente e pela segurança de suas cidades, coisas raras por aqui.

Obviamente, a emissora não mostrou as faixas ao transmitir o jogo. Em um dado momento, aconteceu algo no mínimo estranho: o próprio juiz parou o jogo e pediu ao capitão do time corintiano que dialogasse com a torcida para que as faixas fossem baixadas – o que não foi feito. Mas repórteres de outras redes abordaram o ocorrido em suas mídias no dia seguinte, inclusive com fotos. O futebol é uma instituição brasileira, seja isso certo, seja errado, que não deve se render aos interesses de um canal de TV que não quer comprometer o horário de apresentação de uma de suas novelas. E um torcedor não deixa de ser cidadão. Ao que parece, tornou-se um cidadão cansado de ver o caminho que seu País está tomando, a ponto de abrir mão de parte de seu hobby, em sua hora de descanso, para mostrar sua insatisfação com os rumos econômicos, políticos e da manipulação de corporações alheias ao bem-estar social e que só querem defender seus interesses.

E no futebol, assim como em muita coisa no Brasil, ficou bem claro que o torcedor, que simboliza o povo em geral, fica em último lugar nas resoluções – quando deveria ser o primeiro.
Por Marcelo Rangel / edição 1247 folha universal


Nenhum comentário:

Postar um comentário