quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ARTE E CULTURA: P’S INAUGURA FASE PROFISSIONAL DO TEATRO EM CAICÓ

Por professor Antônio Neves (depois de assistir P’S)

 Está em cartaz em todas as Casas de Teatro do RN a peça teatral P’S, um texto de Gregory Haertel, médico e dramaturgo catarinense, inspirado em “Eu Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão” da obra do francês Michel de Foucault, com direção de Lourival Andrade e atuação monóloga do ator caicoense Alexandre Muniz da Trapiá CIA Teatral.

 P’S é uma peça para assistir na companhia da angústia solitária do próprio personagem “P”, provocada pela sua trajetória de conflitos interior, consequência do amor negado e transformado em afeto matricida que o faz autor de crime premeditado: P assassina toda a família, mas poupa o pai, a quem classifica como um homem bom.

  O texto, que merece alguns reparos simples de entonação de linguagem para contextualizar a própria angústia libertária do personagem e encubá-lo no movimento que a narrativa exprime, transmite em cada palavra lançada pelo olhar cortante do seu intérprete, um incômodo ocasionado pela invocação da força da expressão que a interpretação forte e contundente do ator Alexandre Muniz nos impõe, afinal, P é um sujeito de belicosa argumentação que se coloca na condição de réu vitimizado e suicida afetivo, pois no meio do sertão matador ele é mais um jovem agricultor que se compõe dos restos da memória da sua infância, tão parecida com a de tantos P’Severinos” que João Cabral de Melo Neto pariu.

  Há filosófica Razão Pura e outras maldades criadas pelas inconsequências das sobras do Humano, Demasiadamente Humano que P cultiva na sua tristeza falseada de loucura. Sua personalidade é a própria dúvida entre realidade e fantasia, repousa na relação familiar de amor e ódio e suas carências vingadas por crimes de morte. Seu desespero nos remete a Kant, ao dissecar o mal dilacerado pelas urgências de um propósito afetivo não realizado entre sua família, ele e seu pai. Seu olhar acusador é irrigado de poesia injustiçada que transpira por palavras cortantes um enredo costurado entre tragédias de mortes e as dúvidas que o proclama inocente e caçador de si mesmo, dignificando a sua imagem dilacerada pelos flertes alucinógenos de tudo o que se desmancha no ar – a loucura compartilhada com a morte!

 P’S pode ser uma súplica de amor, numa narrativa que denuncia as falhas do espírito humano comum, sempre muito parecido com tantos dramas vividos e encenados sertão adentro por franceses, judeus e seridoenses, é romântica na sua literatura fúnebre; quase um clichê, se não fosse o apego a sua dramaturgia morredoura envolta a lamentos de um personagem que se autodenuncia para ser livre, por isso, não é permitido sair antes do último ato, pois P é aquilo que não entendemos!

  Os conflitos existenciais de P se desenrolam no calor do sertão que tudo queima, até o afeto, tal o Inferno de Dante, dialoga com pássaros mortos pela crueldade do instinto da alma pueril de um personagem que sempre recorre ao seu porque criança como entrelaçamento de uma verdade corrompida por sua identidade incompleta e golpeada por outros desafetos que se rebelam em volta aos fantasmas do crime por ele cometido contra sua mãe, sua irmã e seu irmão; e é por isso que a narrativa impressiona, pelo simples fato de desenvolver-se numa tradução quase copiosa da realidade do sertão, lugar de “doidos” sabidos, capazes de matar e comer a própria fome numa antropofagia de famintos construída por duelos de vida e sobrevivência, apoiados em laços de parentescos e na infecundidade argumentativa da justiça, da religião e da terra, que tem como acolhimento os insultos que consagram os fantasmas que se colocam sob as dúvidas não traduzidas do público que a tudo assiste em generoso conflito interior que alimenta o discurso provocador das muitas faces existenciais dos muitos Ps que há em nós, mas que no final, nos convence da sua lucidez, como os “doidos” cá-de-nós que revelam nas suas loucuras teatralizadas uma única inconsequência: só queremos ser lembrados.

  P’S é uma peça teatral que inaugura uma nova fase no teatro caicoense, é o divisor de cenas entre o amadorismo de então e o profissionalismo que se inicia, com boa produção e significativa sensibilidade de direção. Sua trilha sonora é uma viagem para além da linguagem rítmica da loucura cadenciada de Emanuel Bonequeiro e Aglailson França (dois doidos do Seridó) que se abraçam a ternura lúdica de Custódio Jacinto que assina cenário e figurino como quem, ao acordar de um surto de insensatez cênica risca sua síntese de lucidez sob o chão do sertão despedaçado e faz de P’S uma peça que pede bis.

    Parabéns e longa vida a Trapiá CIA Teatral!

  Sertão do Seridó, fevereiro de 2016

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