segunda-feira, 16 de novembro de 2015

JOVENS NEGRAS ASSUMEM O CABELO CRESPO COM MUITA ATITUDE


As mulheres negras realizam a primeira marcha nacional em Brasília, no dia 18 de novembro, onde vão reafirmar seus direitos

Por Fania Rodrigues,
                         

"Manter nosso cabelo é uma forma de resistir", diz coletivo | Foto: Stefano Figalo        

O orgulho está na pele, no cabelo e na história dos seus antepassados. Assumir-se negra já é em si uma postura política. Portanto, falar da beleza da mulher negra inclui abordar o significado de reafirmar essa negritude.

A ideia de ter cabelo alisado nunca seduziu a produtora audiovisual Jessyca Lires, de 21 anos. Ela explica que o simples fato dela assumir quem ela é de verdade já causa reação na sociedade. “Nosso corpo é um espaço de resistência. Em qualquer lugar que a gente chega causa um impacto. Manter nossos cabelos assim é um posicionamento político, é uma forma de resistir”, afirma Jessyca.

O racismo ainda está longe de acabar, mas as integrantes do coletivo Meninas Black Power não se deixam intimidar. Elas decidiram escancarar toda a beleza e a exuberância dos seus cabelos crespos.

“Nossa imagem incomoda algumas pessoas, mas isso acontece porque nós, mulheres negras, estamos ocupando espaços que antes a gente não ocupava. E esse incômodo é transmitido em forma de racismo”, diz a estudante de comunicação Karina Vieira, de 31 anos.

Entretanto, o preconceito nem sempre é tão escancarado. De acordo com Karina, muitas vezes ele vem disfarçado de brincadeiras e piadas. “Mas racismo não tem graça”, destaca a universitária.

Violência

As mulheres negras são as maiores vítimas de violência no Brasil. Segundo os dados do Mapa da Violência 2015, o feminicídio de negras cresceu 54% em 10 anos, entre 2003 e 2013, enquanto o número de mulheres brancas mortas caiu 10% no mesmo período.

Suzane Santos trabalha com publicidade afirmativa em comunidade do Rio e articuladora cultural. Quem vê a bela jovem, de 22 anos, não imagina que ela pode ser agredida por conta de sua aparência física. Mas foi.

“Uma vez estava atravessando uma passarela, em Ramos, dois homens passaram por mim e um dele me chamou de ‘gostosa’. Olhei feio e um deles disse que eu tinha que agradecer porque estava recebendo um elogio. Minha estética não agrada, só meu corpo que interessa”, afirma Suzane.

Desigualdade

As mulheres negras continuam recebendo as menores remunerações no mercado de trabalho. Para as Meninas Black Power, essa questão não está separada de sua estética. “Estamos na base da pirâmide social pelo racismo. Isso também é uma forma de violência. Somos agredidas quando nos negam o direito de usar nosso cabelo, nossas tranças e nossos turbantes”, diz Karina Vieira.

Pérola negra

“A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista”, diz a militante do movimento negro Lélia Gonzalez. Tomar consciência é só o começo, mas é um começo importante. Por isso, o cabelo das mulheres negras não é só uma questão de moda ou estilo. É uma afirmação de toda história dos antepassados, das rebeldias, da resistência cultural e identidade.

Deste modo, as bandeiras levantadas pelo fim da violência contra a mulher, do racismo e das desigualdades de salário estão atreladas à luta pelo direito de usar o cabelo afro e pela estética que reafirma a identidade negra.

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