sábado, 26 de setembro de 2015

BRASIL: MORTES VIOLENTAM DE NEGROS AUMENTARAM

De acordo com o Mapa da Violência de 2015, organizado por Júlio Jacobo Waiselfiz, publicado em maio último, "as taxas de homicídios de brancos por armas de fogo caem de 14,5 para 11,8 em 100 mil habitantes, entre 2003 e 2012, enquanto as taxas de homicídios de negros aumentam de 24,9 para 28,5 no mesmo período".

Ou seja, as taxas dos brancos caíram 18,7% e as dos negros aumentaram 14,1%. "Com esse ritmo marcadamente diferencial, a vitimização negra, que em 2003 era de 72,5%, em poucos anos duplica: em 2012 já é 142%”.

Como não se estarrecer com tais dados e o fato de que, em 2011, 53,3% dos 52.198 mortos por homicídio eram jovens e que 71,44% dessas vítimas tinham pele negra, e ainda que 93,03% eram do sexo masculino (também dados do SIM/DATASUS)? Jovens homens negros que deixam também vitimizadas por suas mortes muitas mulheres, mães, filhas e esposas. Famílias negras destruídas.

É, sem dúvida, altamente arriscado nascer negro no Brasil. Há aqui os privilégios da cor, na vida e na morte. Brancos hegemonizando o topo da cadeia social e a massa negra, à margem dos direitos proclamados como iguais, sendo contida ou simplesmente eliminada prematuramente - o que é mais terrível -, muitas vezes pelo próprio aparato de segurança pública.

Quem liga? As vozes dos movimentos sociais de juventude, especialmente a meninada do movimento negro, têm sido cada vez mais tenazes, mais indignadas, gestando uma reação de baixo pra cima, que começa a repercutir até mesmo fora do Brasil. O assunto 'mortes de jovens negros' tem tomado uma dimensão de urgência para muitos que querem virar a mesa e ver estancada a perda prematura de tantos que deveriam ser dignamente integrados a um novo projeto de nação.

O trabalho da CPI da Câmara Federal deve ir mais longe do que a comprovação do extermínio silencioso de tenras vidas negras. É preciso saltar do plano da denúncia para o plano da projeção de medidas que alterem esse quadro caótico. Cabe ao Congresso mudar a pauta conservadora de votações,que vem fazendo e bancar projetos que possam efetivamente alterar a rota da mortandade, elevando os horizontes da juventude negra e a sua expectativa de vida.

É urgente o fim dos autos de resistência, a desmilitarização da polícia e a manutenção do regime de partilha do Pré-Sal, para que haja dinheiro novo para investir na escola pública, que precisa ser refundada em outras bases. Se tais medidas fossem tomadas, já seria um bom começo, uma forma efetiva de demonstrar preocupação com o extermínio de jovens negros e o esfacelamento de suas famílias.

Cabe aos que ligam, aos que se importam, o exercício do poder da pressão. Escrever, gritar, impedir a "banalização do mal", repetindo o grito de Castro Alves, em Vozes da África: "Deus, oh Deus, onde estás, que não respondes? Há dois mil anos eu lhe mando meu grito que embalde, desde então, corre o infinito...".

* Olívia Santana, secretária Nacional de Combate ao Racismo do PCdoB

Nenhum comentário:

Postar um comentário