domingo, 8 de fevereiro de 2015

COMENDADOR JOSÉ ALFREDO, O AUTÊNTICO HOMEM CORDIAL BRASILEIRO

Personagem de uma das maiores audiências das novelas globais, o Comendador José Alfredo incorpora a autenticidade do brasileiro politicamente incorreto

Por Antônio Neves

Ator Alexandre Nero no papel do Comendador Medeiros. Homem de preto, brasileiramente cordial

Quem assiste à novela global – Império – da Rede Globo, torce pelo sucesso do desenrolar da trama em favor do imperador das pedras preciosas, Comendador José Alfredo Medeiros, interpretado pelo ator Alexandre Nero que protagoniza um personagem de estilo controverso, mas que consequentemente desperta a paixão popular. Por muito tempo este personagem será imitado, lembrado e comentado pelo mundo doméstico que assiste à peça de ficção de Agnaldo Silva como se fizesse parte da própria trama; ou será que é porque o Comendador José Alfredo é tão parecido com o brasileiro que chega a se confundir com seu próprio público?

Em que pese o Comendador José Alfredo ser produto de ficção um tanto quanto clichê, identifica-lo como o típico cidadão brasileiro nos permite uma comparação genuína com a ideia paralela do “homem cordial”, idealizada pelo historiador Sergio Buarque de Holanda ao buscar interpretar o país em construção a partir da identidade do sujeito histórico nacional.

Na novela Império, José Alfredo que detém o título de nobreza de Comendador, adjetivo que, mesmo desusado para os padrões da realidade da corte palaciana do Planalto Central em Brasília, não esconde sua condição de mandatário supremo do destino de todos os que estão a sua volta, tanto quanto a necessidade de estes, em buscar a todo custo eliminá-lo para se apossarem do poder e do prestígio que seu império possa permitir como meio de ascensão a sua fortuna, à fama ou até mesmo a uma furtiva relação amorosa, obrigando-o a atitudes que em muito se assemelha ao cotidiano da vida pregressa de muitos brasileiros, principalmente os da classe dominante, elite representante de condutas pouco recomendáveis aos que se julgam adeptos do comportamento politicamente correto.

Olhando para o perfil em tela, José Alfredo pode muito bem ser acolhido nessa órbita do que vem a ser o sujeito brasileiro politicamente incorreto, quando ao mesmo tempo em que é cordial, solícito, generoso, romântico é também rude (e esta característica lhe é imputada pelo estereótipo de ser nordestino), e ainda manipulador, autoritário, infiel, egoísta, desonesto, permitindo se identificar numa informalidade descompromissada com a ética, incompatível com a vivência democrática que o autoritarismo herdado da nossa matriz patriarcal impossibilita. O famoso jeitinho brasileiro tem sido seu principal meio para escapar das tantas armadilhas que vem sendo vítima durante a trama e, por isso, honestidade é um valor que ainda não caiu muito bem no perfil do “homem de preto”.

Praticante de atos como sonegar impostos, lavagem de dinheiro, suborno e corrupção, a ponto de forjar a própria morte para sobreviver com o domínio de seu império e garantir a influência do seu poder, José Alfredo representa por esta lógica o que o senso comum imagina ser norma para legitimar seus interesses e a elite dominante nacional pensa como método para atender a regra geral, que é levar vantagem em tudo.

Generoso com os amigos mais íntimos, a ponto de sentar à mesa com eles para comer uma buchada de bode, fazer o próprio café ou dá emprego a um catador de latinhas, José Alfredo cobra destes, fidelidade como reciprocidade típica do jogo dos favores palacianos para garantir seu controle sobre tudo e, comportamento ético é uma conduta pouco usada pelo mesmo para justificar seus meios e sustentar o poder tão ambicionado pelas disputas a sua volta.

A novela Império está quase chegando ao fim, e tem sido um sucesso. Diante seu enredo, a grandeza e contradições do personagem Comendador José Alfredo Medeiros, qualquer semelhança com o cotidiano, fatos, pessoas ou situações não é mera coincidência, é a ficção que se associa a realidade para confundir a todos nós!

Palmas para o Comendador!

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