quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CINCO MITOS SOBRE O CARNAVAL DE CAICÓ QUE CONFUNDEM A OPINIÃO PÚBLICA

Por professor Antônio Neves

O carnaval está ai, e em nossa Caicó, como há anos, será realizado com a mesma alegria, diversão, paz e o povo nas ruas, e isso faz parte da festa e envolve toda a cidade, pois: “atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu”


Em um carnaval como o nosso, também existe interesses, custos, lucros, ideias formadas e outras inventadas, vaidades; o próprio nome da cidade ganha fama em torno do que é realmente este carnaval e o que é mito, invenções ou puro marketing comercial para favorecer ao que nem sempre é da folia, muito menos da tradição.

Vejamos aqui, 5 mitos sobre o carnaval de Caicó que vem sendo repetido ou distorcido por anos e que, para algumas pessoas tornou-se verdade, quando, ao final é mera conceituação paralógica:

1º mito: O carnaval de Caicó é o terceiro maior do Nordeste.
Os meios de comunicação da cidade, por muitos anos quiseram imprimir esta ilusória ideia de que, o carnaval de Caicó tornara-se o terceiro maior do Nordeste. Se a afirmação se dava pela quantidade de pessoas nas ruas durante os dias de folia ou pela estrutura montada em torno da festa, mesmo assim não se iguala aos grandes carnavais de Olinda, Salvador, Recife, Macau (só pra citar alguns). No entanto, a grandeza do carnaval de Caicó se dá pela paz pública que gira em torno das pessoas que participam da festa, pela acolhida, pela nossa alegria peculiar, tanto quanto pelo baixo custo financeiro, comparado aos custos que um turista tem que dispor para brincar o carnaval em outras regiões. Realizamos sem dúvida um dos maiores e melhores carnavais do estado.

2º mito: O carnaval de Caicó mantem sua tradição, por isso, hoje, é um dos que mais cresce.
O carnaval vem crescendo porque a própria lógica do evento leva a isso, e a cidade já incorporou esta cultura no seu calendário anual, mas no sentido amplo do que vem a ser tradição, principalmente a do carnaval, estamos nos distanciando a cada dia das nossas origens. Há tempos que as mais genuínas tradições do nosso carnaval local vêm sendo deformada (ou renovada) pelas imposições comerciais em nome do lucro e pelo modismo fútil que nada tem a ver com as relações da folia de momo: Não temos mais os Alaursas como tínhamos há 30 anos, e o único que ainda resiste apesar de manter as marchinhas carnavalescas e o bom frevo no final das tardes, não preservou as características e imagens que lhe originou. Os blocos do Lixo, que eram elementos do carnaval popular, composto pelas tradições artesanais das periferias da cidade sumiram por falta de apoio e estímulo. Os blocos de elite, como eram chamados os inúmeros blocos de jovens que brincavam nos clubes da cidade estão virando coisa rara de se ver, pouco a pouco vem perdendo aquela organização típica desse perfil. O Corso foi engolido pelas multidões e seus carrinhos de bebidas. Já não aclamamos nem rei ou rainha, as escolas de samba calaram seus tamborins e os papangús saem às ruas somente na sexta-feira (bloco das virgens), depois, um ou outro vagueia timidamente pelas avenidas. As bandas que animam o carnaval na Ilha de Sant’Ana, (lugar onde hoje é realizado parte da folia) também dão sua contribuição para a deformação do sentido musical do evento, com seus forrós elétricos, sertanejos, swingueiras e outros ritmos estranhos que em nada tem a ver com o estilo musical que o momento exige. Nostalgia ou simples lembranças, algo está destoante com o sentido original da palavra carnaval!

3º mito: carnaval movimenta a economia da cidade
Esta é uma meia verdade, mas vendida como verdade absoluta. Realmente há uma significativa movimentação de capitais em torno de onde se promove o carnaval que favorece a determinados setores da economia local, porém, a falta de planejamento e de maiores investimentos logísticos e financeiros para o evento faz com que o formato de produção e circulação financeira desse movimento não favoreça diretamente ao processo de desenvolvimento econômico da cidade no seu contexto universal articulado, isso porque não há um número exato dos valores em circulação, além da sonegação e da informalidade que não geram tributos. Outro quesito que se contradiz ao discurso do desenvolvimento econômico local é o fato de que boa parte de todo o capital de giro que circula proveniente do consumo, oferta e venda de serviços e mercadorias nesse período, depois, fica concentrado nas mãos do comércio de grande e médio porte, empresários e promotores de festas privadas, e muitas dessas receitas passam longe do processo de arrecadação dos tributos e impostos municipais, que fica aquém do montante financeiro circulante durante este período. Já o pequeno comerciante, o vendedor ambulante, o prestador de serviço, que também gera divisas, fica na órbita da produção e serviços de subsistência temporária e seu lucro nos cinco dias de festa garante apenas suas necessidades básicas por um pequeno período de tempo subsequente ao carnaval. Ou seja, quem mais lucra financeiramente com o carnaval é a iniciativa privada que não investe nem patrocina quase nada para a realização do evento.

4º mito: o município, através da prefeitura, é que tem que bancar sozinho o carnaval porque é uma obrigação do governo.
Este é, certamente, o mais distorcido dos mitos. Carnaval não é uma obrigação do poder público, em que pese ser uma festa popular. Mas em Caicó e em grande parte do país, acostumou-se a ideia de que deve ser o erário municipal quem tem que bancar sozinho todos os custos para a realização do carnaval e, por décadas têm sido assim, com o município investindo altas somas de recursos financeiros para não fazer feio, consequentemente, quem mais lucra com a festa não é o erário, que, no nosso caso, arrecada abaixo do que custeia, mas sim, a iniciativa privada que não entra com nenhum tostão, mas faz inúmeras exigências em nome de seus interesses comerciais. O fato de até pouco tempo atrás, um município pobre como Caicó ter chamado para si a obrigação de investir altas somas de recursos financeiros no carnaval, justificando como argumento os mitos anteriores, é porque tinha que atender também a outros interesses que se escondem por trás das máscaras dos que manipulam mais não pulam o carnaval. Ou seja, na lógica de como sempre se fez em Caicó, com o poder público municipal bancando tudo sem contestações, o carnaval era um evento rentável para alguns poucos que superfaturavam a alegria da festa.

5º mito: a iniciativa privada (promotores de eventos) são os grandes heróis do carnaval de Caicó por promoverem festas em clubes com grandes atrações
Que a iniciativa privada deve ter toda a liberdade para também participar da festa carnavalesca isso é inconteste, agora, para a realidade de Caicó e a dimensão que o nosso carnaval alcançou, dizer que ele só é o que é porque os promotores de eventos privados trazem “grandes” atrações e com isso favorece o fluxo de pessoas e turistas para a cidade, ai já extrapola qualquer avaliação sensata. Independente de qualquer atração em clubes, ou por menor que seja o investimento, com chuva ou sem chuva, o carnaval de Caicó acontece nas mesmas proporções, exatamente porque, mesmo com as tradições deformadas e as novas gerações não terem mais a noção exata do que vem a ser um carnaval de origem e tradição, a cidade realizaria a festa momesca da mesma maneira, mais ou menos na lógica do: “com dinheiro, ou sem dinheiro, ô, ô, ô, eu brinco...”, assim, não é mérito dos empresários promotores de eventos a garantia de trânsito de pessoas ou turistas na cidade para brincar o carnaval, o povo, principalmente os que aqui moram (65 mil habitantes), sairia às ruas com a mesma alegria e entusiasmo. As festas nos clubes, vendidas como a salvação do carnaval para as novas gerações, que pagam por ingressos abusivos para consumir a mesmice e o péssimo gosto das atrações musicais que lá se apresentam, são apenas a continuação do que sempre existiu em Caicó nos memoráveis, mas bem mais saudáveis tempos do Clube Coríntias e do Iate Clube nos anos 80/90... O que põe abaixo o argumento de que bandas de “forrós” tocando os mesmos repertórios que tocam o ano inteiro possam ser elevadas ao grau máximo de serem reconhecidas como animadoras de festa de carnaval, é a grandeza do bom gosto e a saudade de quem já brincou carnaval de verdade.

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