quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

HISTÓRIAS DO CARNAVAL

“Existem, no Brasil,
apenas duas coisas organizadas:
a desordem e o carnaval.”
Barão de Rio Branco
Por Antônio Neves


Bloco do Lixo é uma das maiores expressões das tradições do carnaval popular

O carnaval é a mais mutante expressão das tradições populares que envolve todos os aspectos e classes sociais no seu conjunto cultural brasileiro. Entre teóricos, historiadores, empíricos e palpiteiros, são muitas as teorias que buscam definir sua origem. Para a maioria, remonta seus primeiros bailes de máscaras, realizados na Europa ainda na idade média.

Já no Brasil, suas primeiras configurações chegaram por duas rotas: a primeira, veio da África, de onde os negros, junto com seus cantos e suas danças, contrabandearam, involuntariamente, a semente do carnaval. A outra tem o peso europeu, consolidada nos salões feudais e aristocráticos lá da idade média, trazendo de Portugal o ENTRUDO, que era o que então consistia o carnaval, num comportamento de jogar tudo em todos, e que, por aqui se configurou na tradição do mela-mela associada à imagem do Zé Pereira. Com a fusão destes dois elementos culturais, com as características da miscigenação brasileira, onde samba, frevo, marchinhas e axé, se fizeram carnaval.

No entanto, nos seus primórdios, nem tudo era samba, frevo, marchinhas ou diversão no carnaval, isso porque, o carnaval nos fins do século XIX, mal saído do entrudo, não levava em conta a música, mas somente a brincadeira e a malhação, uma forma grosseira que nem sempre terminava em paz, devido a sua desorganização e subjetividade.

Até os primeiros anos do século passado, as primeiras músicas cantadas no carnaval em qualquer ponto do Brasil, tanto podiam ser velhos estribos de sabor africano, divulgados por antigos ranchos de baianos ou por cucumis e afoxés de escravos, como as polcas, modas sertanejas e até valsas de salões, mais consumidas pelas elites brancas, tocadas quase sempre em pianos nos bailes de máscaras.

Com o aperfeiçoamento do samba por volta de 1917 e da marchinha em 1920, se dá o achado que as camadas populares urbanas buscavam para definir as misturas dos ritmos que definiriam o perfil de um carnaval popular, principalmente o carioca, que foi quem melhor absorveu de início, a difusão musical do carnaval, revelando compositores como Chiquinha Gonzaga, que já em 1889 nos brindava com a ainda tão cantada - Ô ABRE ALAS, e Sinhô, que a partir da composição de - PÉ DE ANJO - acabaria fixando a marchinha carnavalesca como um dos principais gêneros musicais mais tocados durante os festejos de momo.

Ao correr da década de 30 do século passado, o frevo pernambucano começaria também a espalhar-se pelos carnavais de todo o Brasil, abrindo espaços para um ritmo com passos vibrantes e sensuais, apresentando novos compositores que consolidaram a música carnavalesca tanto nas ruas como nos salões, mais foram os dois irmãos baianos: Dodô e Osmar que aprimoraram a guitarra elétrica e com ela o trio elétrico vindo da Bahia que potencializou a imagem sonora do carnaval.

Os últimos 30 anos do século XX, a música baiana, denominada Axé-music, adentrou os espaços carnavalescos apimentando os corredores da folia com o tempero que faltava para fazer do carnaval o instrumento popular mais democrático de acolhimento das misturas e tradições dos ritmos musicais que compõem a pluralidade cultural brasileira, quebrando barreiras e preconceitos e promovendo nesta criação popular única no mundo, os mais diferentes gêneros de músicas em meio ao aparente caos do carnaval.

Nenhum comentário:

Postar um comentário