terça-feira, 27 de janeiro de 2015

QUEM É QUE VAI PAGAR POR ISSO?

Falta de estrutura na Saúde pública de Caicó continua tirando a vida de seres humanos

 
Hospital do Seridó: Referência em Obstetrícia ?

A gestante Josana Varela Pessoa, de 36 anos de idade foi apenas mais uma vítima da falta da estrutura de Saúde de Caicó. Ela pagou com a sua vida pela negligência dos governos de não dotar os hospitais da cidade, principalmente o Hospital do Seridó, única referência em obstetrícia da cidade, de condições para o atendimento de partos de alto risco, como no caso da paciente que faleceu.

Josana deu entrada na urgência do Hospital Regional do Seridó nesta noite de ontem, segunda-feira (26), a princípio com suspeitas de parada cardiorrespiratória. Foi atendida pelo médico de plantão, Dr. Gabriel Medeiros que vendo a gravidade do problema e por não ter a estrutura necessária e a Unidade não ser referência em atendimento solicitou que um enfermeiro ligasse imediatamente para o Hospital do Seridó solicitando receber a paciente, mas sem sucesso. Dr. Gabriel conversou com o Blog do Marcos Dantas sobre o assunto:

Como se deu a morte da mãe e da criança?
Gabriel – A morte dela provavelmente foi ocasionada devido ao quadro de hipertensão gestacional, já que ela vinha sendo acompanhada em um pré-natal de alto risco e essas paciente geralmente evoluem para um quadro de eclampsia, que é bem grave e que as vezes não tem como ser revertido. No momento que a paciente chegou aqui, a gente não teve nem como dar esse diagnóstico de eclampsia. Ela já estava em parada cardíaca, vinha agonizando e nós iniciamos os procedimentos para tentar ressuscitar a paciente, fizemos um contato com Hospital do Seridó afim de que a paciente fosse levada pra lá, mesmo estando numa condição não muito onde a gente não poderia afirmar se ela iria sobreviver ou não, já que estava em quase 10 minutos de parada e ela não apresentava nenhuma resposta. Mas a intenção da gente era que a paciente fosse pra lá na tentativa de se fazer uma cesária de urgência e pelo menos ver se a criança teria viabilidade ou não. O contato que foi feito pelo enfermeiro foi recebida a resposta de que lá não tinha estrutura e podia mandar para Natal. Mas a paciente não tinha condições de ser mandada para Natal, pois estava em parada. Então nós continuamos o procedimento e foi tentado um outro contato com o Hospital do Seridó, pedimos pra que fosse feita a cesária aqui no Gospital Regional, mas foi negado também ao dizerem que não teria como. Então continuamos a massagem cardíaca pelo período de 340 minutos que é indicado, como não houve resposta da paciente, paramos as manobras. Fizemos o contato com o cirurgião de sobreaviso, Dr. Nilson Dias, ele veio para o Hospital. Quando chegou no Hospital, eu também não sabia, o obstetra já estava aqui tentado fazer a cesária e ver se conseguia algum êxito com relação a criança, porque a mãe já estava sem vida. O que ocasionou provavelmente foi essa crise de eclampsia, que gerou um dano muito grande ao coração, e a paciente evoluiu para parada cardíaca.

A criança sobreviveu?
Não. Dr. Francimar veio fazer o procedimento e a criança já estava morta. É bom esclarecer que às vezes as pessoas não entendem, que o fato da paciente ter vindo para o Hospital Regional, se eu me referi a algum familiar e ele interpretou que o Hospital não tinha estrutura, a estrutura a que eu me referi foi obstétrica. De você ter como escutar uma barriga, ver se o feto tem batimento ou não, e outros procedimentos obstétricos. A gente fez o que um hospital geral faz, mas a paciente deveria ter ido para o Hospital com referencia em obstetrícia. A falta de estrutura que eu me referi foi essa, e não que o Hospital Regional não tem estrutura para atender um paciente com parada cardíaca. Apesar de todas as dificuldades o Hospital Regional de Caicó tem feito um trabalho bem diferente do que vinha sendo feito anteriormente. A UTI hoje funciona, tem um serviço de cirurgia que também funciona, serviço de ortopedia que funciona, a urgência aos trancos e barrancos a gente vai fazendo o que pode. Se existe referencia em obstetrícia em Caicó, é o Hospital do Seridó. Gestantes devem ser encaminhadas para o Hospital do Seridó, porque o obstetra é quem trata de gestante, o clinico-geral pode tratar na falta de um obstetra, mas existindo o profissional o ideal é que a gestante seja tratada por um obstetra.

Porque você acha que houve essa negativa do Hospital do Seridó?
Sinceramente eu não sei. Não conheço a estrutura do Hospital do Seridó. Não sei o que tem e o que não tem. Não sei por que houve a negativa. O procedimento que deveria ser tomado era ligar para o Hospital do Seridó que teoricamente é o hospital referencia em obstetrícia de Caicó. Mas que a gente sabe que essa referência não vem sendo a melhor possível.

Diante dessa negativa do Hospital do Seridó, e a demora na chegada do obstetra, o senhor pensou em abrir a paciente?
Eu pensei, porque eu estava diante de um quadro que eu, como médico já tinha passado, mas viabilidade da criança, já de nove meses eu fiquei com vontade de abrir a barriga, mas a gente tem sempre que usar pela prudência e não querer causar estardalhaço, nem factoides sobre uma coisa que você ia gerar mais sofrimento para a Família. Isso aí era uma coisa que a gente bate o desespero na tentativa de salvar uma vida. Quero deixar claro que as negativas do Hospital do Seridó, a gente não pode afirmar que se elas tivessem acontecido do contrário a criança estaria viva. Eu não estou dizendo que o fato da instituição não ter recebido a paciente foi determinante para a morte da criança, mas eu fiz e farei todas as vezes que precisar, pelo fato de que a gente tem que ir até onde a gente pode.

Com informações de Marcos Dantas

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