quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

NÃO É SÓ A ÁGUA, NEM A SECA, MAIS OS HOMENS E SEUS (DES)GOVERNOS

Por Antônio Neves

O Brasil vive uma crise sem precedentes de abastecimento d’água, não somente no Nordeste, mas também nos principais centros econômicos do país. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais dão sinais concretos de exaustão nos seus sistemas de abastecimento, o que, em síntese, em nada se compara com a seca secular que sempre atingiu o Nordeste brasileiro. O que nos iguala são a irresponsabilidade e descompromissos governamentais em não ter evitado problemas antes de eles se estabelecerem.

A diferença desta crise é bastante comparativa e nos coloca uma questão de ordem política: Por que a falta d’água tornou-se uma preocupação nacional somente agora, quando começou a afetar o Sudeste? A dinâmica da resposta está intrincada nas consequências que vão além da falta de chuvas em abundância para encher reservatórios, pois atinge diretamente interesses de ordem econômica de semelhantes proporções que a elite paulista não quer pagar para ver o resultado.

Em rede nacional a grande mídia enfoca em horário nobre a preocupação constrangedora de os sudestinos se verem desabastecidos pela falta d’água em suas cidades, enquanto que ao mesmo tempo encobrem a falta de planejamento e gestão de sucessivos governos que não consideraram a possibilidade de estas regiões passarem pela calamidade que vivem agora. Para os sudestinos, escassez de água sempre foi coisa de nordestino e, enquanto era apenas um problema dos flagelados do norte, tudo poderia ser resolvido com cestas básicas e campanhas de donativos para amenizar a miséria televisionada, o resto (chuva/água) ficava por conta de São Pedro, e São Paulo não tinha nada a ver com isso.

É bom lembrar que a crise da falta d’água no Sudeste não se relaciona diretamente com as imagens e problemas da seca como é comum vivenciar no Nordeste. Os problemas da falta de chuvas regulares, principalmente no estado de São Paulo, segundo estudos técnicos apontados, estão mais relacionados com a falta de gestão dos recursos hídricos e com os problemas climáticos em expansão do que por uma situação de seca somente. Já no Nordeste, a seca que sempre foi do conhecimento de governos e especialistas no assunto desde os tempos do Império e costumeiramente tratada com paliativos, tem sido até hoje um conflito social e econômico que apesar dos estudos, promessas, projetos e canções, nunca teve as devidas soluções para promover uma convivência humana e natural a contendo de livrar o povo nordestino do flagelo e das carências que um ambiente como este pode causar.

Os governos e a grande mídia vêm tratando dos assuntos água e seca sem considerar a dimensão do que cada ação e reação desta representam para os espaços em que ela se faz sentir e se agrava. A população sedenta de verdades e soluções, esquece-se de abastecer suas compreensões críticas com outros elementos causadores desta crise que, certamente exige muito mais que orações. Falta colocar no mesmo cacimbão, as observações ao comportamento humano e social sobre os (des)cuidados com o meio ambiente que, sem dó nem piedade é um dos fortes motivos causadores das respostas do clima às ações predadoras do homem e seus mercados; resultado: juntando tudo isso ao panteão da natureza e dos desgovernos,  nos vemos diante a possibilidade de um colapso nacional de grandes proporções em todas as áreas do desenvolvimento que nos obrigará a cantar  aquela melancólica canção de Gilberto Gil que pede assim: “ traga-me um copo d’água tenho sede, e essa sede pode me matar(...)”.

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