terça-feira, 4 de novembro de 2014

CIENTISTA POLÍTICO ANALISA A CONJUNTURA DEPOIS DAS ELEIÇÕES

Frederico Santana e Joana Tavares
Belo Horizonte (MG)

Professor de ciência política na Unicamp, Armando Boito Jr. tem elaborado sobre a conformação de uma frente de suporte aos governos do PT, que ele chama neodesenvolvimentista, por garantir ganhos tanto para  a burguesia interna quanto para parcelas dos trabalhadores, especialmente os mais pobres. Nesta entrevista, ele aponta o que estava em disputa no segundo turno e como fica o cenário agora.

Brasil de Fato - Houve maior politização e polarização nessas eleições. Qual o impacto dessas eleições para a direita e esquerda partidárias?
Armando Boito Jr. - Os governos petistas representam uma ampla, heterogênea e contraditória frente política que agrupa, de modo um tanto frouxo, desde a grande burguesia interna, que é a principal beneficiária da política econômica; até os trabalhadores da massa marginal, que foram beneficiados por programas de transferência de renda; passando por parte da classe média, do operariado e do campesinato. Na conjuntura que precedeu a eleição, essa frente vivia um momento de instabilidade. O baixo crescimento econômico e a pressão imperialista em toda a América Latina minaram a unidade da frente política neodesenvolvimentista. Basta lembrar que a Força Sindical rachou e que um setor importante da CUT pretendia que a central ficasse neutra na eleição. Isso não aconteceu em 2010. Já o campo neoliberal ortodoxo, que representa o grande capital internacional e a fração da burguesia brasileira integrada a esse capital, tentou restaurar sua hegemonia política no Estado brasileiro. Essa ofensiva atraiu parte da burguesia interna, como o setor sucroalcooleiro. Na cena partidária, esse fato apareceu na divisão do PMDB e na instabilidade maior da base aliada do governo Dilma. O fato é que as contradições no interior da frente e a ofensiva restauradora do neoliberalismo ortodoxo tornaram a reeleição uma disputa difícil e incerta.

E como fica a conjuntura pós-eleitoral?
Dilma Rousseff necessitou politizar o discurso de campanha e dar um passo à esquerda para poder vencê-la. Essa orientação reaproximou os movimentos populares do governo do PT. A vitória de Dilma adquiriu feições de uma vitória popular. O que estamos vendo agora é que a mesma orientação afastou ainda mais as forças burguesas do governo. Pelo menos, é o que se pode notar nesses primeiros dias após o pleito. O PMDB ameaça agir como partido de oposição e o PSDB, embora reconheça a derrota do candidato Aécio Neves, não aceita passivamente a derrota política. Querem que o campo vitorioso traia o seu programa de campanha, abandone a proposta de regulamentação econômica dos meios de comunicação, a proposta de reforma política e o neodesenvolvimentismo com distribuição de renda. Eles querem que a presidenta eleita aplique o programa do candidato derrotado.

Apesar da derrota, Aécio teve 48% dos votos. Qual o perfil do eleitor de Aécio? E de Dilma?
Todas as pesquisas de intenção de voto e também o mapa das apurações mostraram claramente que o voto em Dilma variou na razão inversa do nível de renda e de escolaridade dos eleitores, enquanto o voto em Aécio Neves foi o voto dos ricos. Isso foi o quadro geral. Contudo, foi possível detectar uma perda de votos de Dilma Rousseff em bairros populares. Isso indica que a insatisfação popular com a política econômica e social cresceu. O reformismo dos governos do PT é mais favorável para as camadas sociais em situação de extrema pobreza que para os trabalhadores integrados na produção propriamente capitalista. Tem se dirigido mais aos “pobres” que aos trabalhadores. Esse é um aspecto importante para entender o péssimo resultado do PT em São Paulo. Reivindicações antigas dos assalariados urbanos vocalizadas pelas centrais sindicais – redução da jornada semanal de trabalho, regulamentação progressista da terceirização, fim do fator previdenciário, melhoria dos transportes – foram deixadas de lado.

Quais consequências dessas eleições para frente neodesenvolvimentista que esteve na base de sustentação do governo nos últimos 12 anos?
É improvável que a frente permaneça com o mesmo programa e os mesmos integrantes que a caracterizaram até aqui. O governo terá de se mover à esquerda ou à direita. O discurso de campanha e o pronunciamento no dia da vitória indicaram um passo à esquerda. Contudo, a pressão do Congresso Nacional e dos meios de comunicação está muito forte.

Em seu primeiro pronunciamento, a presidenta falou da necessidade de um plebiscito para a reforma política. Qual a importância da luta por uma constituinte do sistema político neste momento?
A luta por uma Constituinte exclusiva e soberana para a reforma do sistema político pode impedir que a direita confisque a vitória obtida na urna. O sistema político atual bloqueia as reformas progressistas. Sem mudar o sistema político, será muito difícil fazer passar reformas progressistas. Por isso, agora, além de tocar adiante as suas lutas econômicas e corporativas, os movimentos populares devem se alçar à luta pela Constituinte do sistema político.

O Partido dos Trabalhadores poderá dirigir a frente neodesenvolvimentista para uma nova fase mais favorável ao movimento popular?
Se o movimento popular pressionar nas ruas e por fora do Congresso, o PT poderá ser levado a dar um passo adiante. Mas o fator principal é essa pressão popular de fora e a luta pela Constituinte poderá ser o fato novo e catalizador dessa pressão. A verdade é a seguinte: entramos numa fase nova e temos de conceber, para essa fase, objetivos e métodos de luta novos. Imaginar que após a eleição tudo voltará a ser como antes.

Fonte: Brasil de Fato

Nenhum comentário:

Postar um comentário