terça-feira, 16 de setembro de 2014

ONDE FOI ENTÃO QUE A ESQUERDA ERROU? (continuação)

 Inaugurando este novo momento, contraditoriamente, a esquerda que ascendeu a Presidência da República renuncia a sua condição programática e de oposição ao velho que resistia a não sair de cena e levou parcela significativa de seus quadros, intelectuais e lideranças de base para uma nova concepção de esquerda – a esquerda governista -. Condicionada aos ditames dos mercados e aos pactos da governabilidade, esta esquerda estatizou a militância e enquadrou o movimento sindical, gerando com isso a dispersão ideológica e o distanciamento do diálogo e do debate orgânico com as bases, favorecendo aos (pre)conceitos ante-esquerda da mídia conservadora e dos setores reacionários da elite dominante. Tal condição foi pano de fundo para o surgimento nas últimas eleições de posturas oportunistas e personalistas que adotaram o leviano discurso da necessidade de uma “nova política” como instrumento para combater a esquerda que está no governo, sob o argumento de a mesma ter falhado na sua missão transformadora.

  Diante o desafio de manter um programa de esquerda popular de cunho socialista transformador erguido sobre reformas políticas e estruturais profundas, a esquerda governista preferiu, seguindo na contramão dos governos de esquerda da América Latina, o receituário do projeto neodesenvolvimentista de conciliação de classes, adequando-o aos pontos macro da sua plataforma eleitoral, consequência das imposições das alianças governamentais com os grupos conservadores dominantes que exigem a manutenção da divisão do poder, privatizando a política, concentrando a renda e excluindo o povo das grandes decisões. A esquerda de vanguarda perde espaço na operacionalidade das decisões, a esquerda governista hegemoniza e assume um perfil mais próximo da social democracia.

  Neste cenário, o que ficou claro foi à constatação de que, ganhamos as últimas eleições para Presidência da República, mas não consolidamos a intervenção direta da sociedade nas estruturas e na democratização do poder, numa ação que pudesse promover a democracia direta e popular. O que faltou para isso foi uma pedagogia política de esquerda que pudesse ser aplicada no seio das bases sociais e das massas antes excluídas que, com os avanços dos últimos anos, obtiveram certa ascensão social, sem, no entanto, associar estas conquistas a necessidade de consolidação de uma política governamental popular e mudancista. Faltou educar politicamente as massas e convencê-las do papel a desempenhar no inevitável confronto da disputa pelo poder que não se ausentou um só momento da agenda do dia da extrema direita.

  O reflexo mais claro que temos disso tudo é a confusão estratégica que se apresenta no atual momento eleitoral, onde o que está em disputa são a manutenção e continuidade de um projeto de transformação gradual, com valorização dos salários, investimentos em educação, geração de empregos, mais soberania e participação social, contra o falso discurso pela mudança vazia e despropositada, promovida nas asas dos prepostos da nova política (leia-se Marina Silva – PSB/Rede, e seus aliados da direita disfarçada), assessorada pelo fundamentalismo religioso e homofóbico que surge como novo ator no confronto direto na disputa pela hegemonia dos espaços dos poderes político e institucional.

  O desafio maior da verdadeira esquerda brasileira, depois de toda sua gloriosa trajetória de lutas e conquistas, tem ressonância na voz das urnas e das ruas que, pela terceira eleição presidencial consecutiva, manda um recado para seus líderes e representantes, dizendo que: ou avançamos ostensivamente nas mudanças políticas, econômicas e sociais necessárias, rompendo com o pragmatismo eleitoral que nos impossibilita maiores avanços em nome da conciliação de classes ou teremos sempre que lidar com as manipulações da direita golpista, predadora e imoral que assombra a Pátria Mãe Gentil com seus prepostos para combater e impedir a consolidação das verdadeiras mudanças reivindicadas pelo povo e pelos trabalhadores.

E para tudo isso, só o voto não será democraticamente suficiente.

*Antônio Neves é professor, historiador, sindicalista e administrador deste Blog

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