domingo, 17 de agosto de 2014

VOCÊ TAMBÉM FINGE QUE NÃO VÊ?


Estamos nos tornando insensíveis diante dos problemas dos outros?

Por Rê Campbell
Na edição 1167 Folha Universal

Parece filme, mas aconteceu na vida real. Acompanhe as cenas: em um zoológico, um menino de 11 anos ultrapassa a área de segurança para brincar com um tigre. Apenas uma jaula separa o animal da criança, que consegue até colocar as mãos entre as grades. Apesar do risco que o menino corre, algumas pessoas decidem filmar a “brincadeira” perigosa. Minutos depois, o tigre ataca o garoto.

O caso aconteceu em Cascavel, no Paraná. O garoto teve o braço direito amputado. Todas as pessoas que viram o menino provocando o tigre sabiam que uma tragédia poderia ocorrer. Diante dessa certeza, por que nenhum adulto foi capaz de retirar o menino do local antes que ele fosse atacado? Por que ninguém se apressou para chamar os seguranças do parque?

O menino estava acompanhado pelo pai e pelo irmão de 3 anos. Testemunhas do caso afirmaram que houve tentativas de avisar o pai da criança sobre o perigo, mas ele não fez nada.

De quem é a culpa?

A Polícia Civil investiga as circunstâncias do acidente e o pai da criança deve responder por lesão corporal grave. Outras pessoas também poderão ser responsabilizadas, inclusive quem assistiu a tudo. Mais do que apontar culpados ou inocentes, o caso levanta outro questionamento: o que leva um ser humano a assistir a cenas tão perigosas sem tomar nenhuma atitude?

“Ocorre que muitas pessoas pensam assim diante de várias situações, acham que não devem se meter quando há um ‘responsável’ pela situação naquele momento, só que esse tipo de comportamento gera consequências”, afirma a psicóloga Simone Domingues, coordenadora do curso de psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul.

O psicólogo Fábio Roesler tem uma explicação mais incisiva. “A passividade atual da maioria das pessoas, mesmo diante de situações chocantes, ocorre por uma padronização do individualismo radical e extremista no qual o outro é visto como alguém a ser usado ou deixado de lado, dependendo da capacidade que esse outro tem de satisfazer as nossas necessidades pessoais”, diz.

Problema dos outros

Todos os dias presenciamos uma série de acontecimentos que envolvem desconhecidos, em espaços públicos e privados: somos abordados na rua por pessoas em busca de informação, vemos acidentes de trânsito, encontramos idosos à procura de um assento no ônibus, presenciamos pessoas chorando e outras atrapalhadas com sacolas de compras. O que costumamos fazer diante dessas cenas? Paramos para ajudar, fingimos não ver o problema, fazemos um vídeo ou esperamos que outra pessoa tome a iniciativa?

Quem nunca ignorou um problema alheio que atire a primeira pedra. Há outras situações que mostram a nossa falta de atitude, tais como ver um carro quebrado na estrada e não ligar para o resgate ou presenciar uma briga e não telefonar para a polícia.

As psicólogas Márcia Orsi e Cristiane Lorga explicam que a competitividade e o individualismo presentes na sociedade diminuem a empatia que sentimos por desconhecidos. Ou seja, temos dificuldade para nos colocar no lugar do outro.

As duas especialistas acreditam que o mundo virtual também ajuda a aumentar a insensibilidade das pessoas. “O encontro e os relacionamentos apenas por meio de redes sociais aumentam a distância entre as pessoas, o que cria uma solidão emocional. Vídeos, filmes e jogos violentos banalizam a dor, a raiva, a morte e a violência”, argumenta Márcia. “A banalização é o pior problema, pois torna o sofrimento algo comum e cria a insensibilidade”, resume Cristiane.

Descompromisso social

As transformações da vida contemporânea também justificam, pelo menos em parte, o distanciamento entre os seres humanos. Com tantas obrigações diárias, as pessoas estão cada vez mais focadas em resolver apenas os próprios problemas. Logo, acaba faltando tempo – e disposição – para pensar nos outros.

“A maioria das pessoas pensa que cada um tem que cuidar da sua vida e não deve se meter na vida dos outros. Essa forma de entender o mundo implica na falta de compromisso com o outro, gerando um grande descompromisso social”, diz a psicóloga Simone Domingues.

3 dicas para ser um pouco mais solidário

Coloque-se no lugar do outro: antes de ignorar uma pessoa que está passando por alguma dificuldade, tente se imaginar no lugar dela. Você gostaria de receber apoio de outras pessoas?

Ofereça ajuda: pergunte ao outro se precisa de auxílio e tente encontrar a melhor forma de ajudar, seja com palavras, seja com ações

Seja voluntário: procure se envolver em um trabalho social que esteja relacionado ao seu perfil. Você pode usar seus conhecimentos e aprender uma nova atividade

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