terça-feira, 8 de abril de 2014

SUS - A SITUAÇÃO BRASILEIRA

Pode ser absurda, mas não é a única história ‘mal contada’ que leva gestações perfeitamente saudáveis a terem a cesariana como desfecho. Artigos como Unwanted caesarean sections among public and private patients in Brazil, de Joe Potter e outros autores, mostram que entre 70% e 80% das brasileiras que passaram pela cesárea desejavam, na realidade, partos vaginais. Porém, hoje, apenas 48% das mulheres do país conseguem efetivamente dar à luz por essa via.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que uma taxa de cesarianas razoável giraria em torno de 15%, o Brasil tem a maior do mundo: 52,3% – no setor público são 38% e, no privado, mais de 80%. Em algumas cidades, os números do setor privado são ainda mais alarmantes. No município do Rio de Janeiro, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, 93% dos nascimentos ocorridos em hospitais particulares se dão por via cirúrgica. Na prática, isso significa que as gestantes cariocas têm apenas 7% de chances de conseguirem um parto normal fora do Sistema Único de Saúde (SUS).

O número elevado de cesarianas é apenas um dos problemas do nosso modelo. Os partos vaginais realizados no país ainda têm como característica, em sua maioria, o abuso de intervenções violentas ou o tratamento inadequado às gestantes. A pesquisa ‘Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado’, publicada pela Fundação Perseu Abramo em 2010, revelou que 25% das mulheres relatam algum tipo de violência durante o atendimento ao parto – atitudes que vão desde xingamentos, gritos e o impedimento da presença de um acompanhante (o que, em tese, é garantido por lei desde 2005) até a realização de procedimentos dolorosos sem aviso ou consentimento. Na rede pública o panorama é pior: a violência obstétrica foi referida por 74% das mulheres.

Além disso, o Brasil não é, nem de longe, o país mais seguro do mundo para se parir e nascer, apesar de o sistema ser altamente medicalizado e centrado nos hospitais – mais de 95% dos nascimentos ocorrem dentro dessas instituições. A razão da mortalidade materna, segundo dados do Ministério da Saúde (MS), é hoje de 78 a cada 100 mil nascidos vivos. Parece pouco, mas, para se ter uma ideia, no Canadá, Alemanha, Holanda e Suécia esses números são, respectivamente, 12, 7, 6 e 4. Em relação à mortalidade neonatal, a situação também não é boa. Em 2011, de acordo com a OMS, a taxa brasileira foi de dez mortes para cada mil nascidos vivos, bem distante dos valores de países como Reino Unido (3), Canadá (4), Holanda (3), Suécia (1) e Japão (1).

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