terça-feira, 17 de novembro de 2015

O RACISMO NA VIDA, NO TRABALHO E A LUTA DIÁRIA PARA COMBATÊ-LO

O Brasil concentra a maior população afrodescendente fora da África e, mesmo assim, negro continua sendo o maior alvo da violência e sofrendo a maior desigualdade no mercado de trabalho. Apesar de serem mais da metade da população brasileira, os negros estão sub-representados e invisíveis.

Convivemos com a desigualdade entre negros e brancos e muitos pensam que é fruto somente de um problema social, não do preconceito. Isso legitima que o preconceito se mostre em nosso cotidiano. A teoria da igualdade racial em nosso país é desmentida por casos de racismo que ocorrem todos os dias. O nosso racismo é institucional, alimentado diariamente por estereótipos, gracejos e piadas preconceituosas, é uma herança escravocrata que determina qual é o lugar do preto. 

A discriminação de pretos e pardos, para muitos uma queixa já ultrapassada, está arraigada em nosso comportamento e perpassa as esferas públicas e privada, do aspecto mais social ao mais íntimo de cada um de nós. Nosso racismo se ampara no ideal do branqueamento, que guiou a miscigenação brasileira. Somos muito menos a democracia racial, concebida por Gilberto Freyre, e muito mais a demagogia racista, que presenciamos no cotidiano.

Segundo uma recente pesquisa do IPEA, o negro é duplamente discriminado no Brasil, por sua situação socioeconômica e pela cor de pele. Isso explicaria a maior ocorrência de homicídios de negros em relação ao resto da população, em uma proporção de 2,4 para cada branco e índio. A taxa de assassinatos de negros no Brasil é de 36 mortes por 100 mil negros — entre não negros, esta taxa é de 15,2. Os baixos níveis educacionais deixam a população negra entre os mais pobres do país, enquanto 64,42% dos não negros estão entre os 50% mais ricos do Brasil, a maior parte dos negros (55,28%) está entre os 50% mais pobres.

Outro estudo, realizado pelo Instituto Sou da Paz, de São Paulo, corrobora os resultados do fosso racial. Enquanto acidentes de trânsito são as principais causas da morte não natural de brancos, negros morrem mais por homicídios. Além disso, duas de cada três mortes em decorrência de confrontos com policiais são de negros. Na prática, isso significa uma taxa de 2,3 vítimas negras para cada 100 mil, contra 0,6 brancos por 100 mil no mesmo tipo de ocorrência.

Um terceiro estudo, do pesquisador Ivair Augusto Alves dos Santos, revela o aumento de casos de discriminação e expõe relatos de vítimas de preconceito. Este trabalho converteu-se em obra literária e será utilizado na formação de policiais civis de São Paulo. Ele identificou, entre 2000 e 2007, 12 mil casos de discriminação registrados em sentenças judiciais, despachos, pareceres e inquéritos policiais coletados em Tribunais de Justiça de todo o país e revelou que por parte do Poder Judiciário, Ministério Público e delegados, a tendência é desqualificar determinadas atitudes como não sendo crime de racismo, transformando-as em injúria.

Destaca-se também que o Brasil possui a 4ª maior população carcerária do mundo, com quase 515 mil pessoas, sendo que mais de 134 mil presos têm de 18 a 24 anos. Os negros representam 275 mil, quase 60% do total, de acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o que pode indicar que a justiça no Brasil é seletiva.
por: Maria Júlia Reis Nogueira, secretária de Combate ao Racismo da CUT Nacional

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