quinta-feira, 25 de julho de 2013

PROFISSÕES EM EXTINÇÃO NO MEU CAICÓ ARCAICO

Por Professor Antônio Neves

Há 40 anos, quando Caicó ainda era uma terrinha provinciana, com a vida girando em torno das tradições mais elementares, uma economia primária e de subsistência, alimentada quase que somente pela saudável produção do campo, o artesanato e os serviços básicos vendidos pelos arredores da “Rua Grande” (que era como chamávamos o centro da cidade), ou nas bodegas dos bairros centrais (Paraíba, Barra Nova, Boa Passagem), era possível encontrar nesses espaços tudo o que precisávamos para as nossas necessidades essenciais.

Hoje, com o advento da tecnologia, da modernização da produção industrial em alta escala, da cibernética e internet, onde compramos tudo pronto e instantâneo, descartável e com pouca durabilidade para atender as demandas do consumo e dos mercados produtores e consumidores, muitas profissões consideradas simples estão em extinção por aqui: barbeiros, engraxates, sapateiro, chaveiro, consertador de panelas, balaieiro, vendedor de mangaio, costureiras, rezadeiras, são algumas das profissões ou atividades comerciais que já não as encontramos com tanta facilidade como antigamente, onde seus profissionais se tornavam quase que um membro da família pela frequência com que seus serviços eram requisitados.

Olhando para a Caicó do presente, com o charme artificial das suas lojas modernas com fachadas iluminadas por apelos comerciais e chavões publicitários, meninos e meninas desfilando hipnoticamente com seus celulares de último lançamento, sem tempo para se olharem nos olhos, carros e motos que engoliram o passeio público, poluição sonora que insiste em nos fazer ouvir músicas de péssimo gosto, supermercados com múltiplas variedades de enlatados e outros dessabores nada comparados, resta apenas focos de resistência para algumas dessas profissões e serviços que ainda se mantem, sem despertar o interesse da nova geração que prefere comprar pronto o descartável que custa bem mais caro. A ditadura da moda e dos costumes modernos nos transformou em algo tão fútil, quanto à desnecessidade de seus valores.

Mesmo assim ainda resistem:

BARBEIRO

Barbeiro Chicão é referência no centro da cidade

Segundo Chicão (Francisco Assis de Brito), o mesmo já soma 51 anos de profissão de barbeiro, que é diferente da de cabeleireiro. Por alguns anos também atendia a domicílio e seu ponto comercial (a barbearia) que só atende ao público masculino fazendo barba, cabelo e bigode esta situada na Avenida Coronel Martiniano, depois de já ter sido estabelecida em outros locais, sempre no centro da cidade. Apesar de ter feito curso de cabeleireiro, Chicão optou por ser barbeiro (com cadeira rotatória, navalha, talco e muita conversa fiada dos que esperam a vez) e, segundo o mesmo, é bastante rentável. Porém, esta profissão é umas das que estão em extinção na nossa cidade, restando pouco mais de três barbeiros ao estilo Chicão para atender ao público masculino no centro. Nos bairros é comum homens, com seus salões modernos, exercendo a profissão de cabeleireiro masculino, mas não de barbeiro.

ENGRAXATE

Seo Tinor e seo Maurício - últimos da velha tradição

Uma das mais antigas profissões de rua e das mais comuns encontradas pelo centro da nossa cidade nos idos do século passado. Engraxar os sapatos nos dias de feira livre (que é sempre aos sábados) era uma das tarefas obrigatórias dos homens da freguesia, principalmente os feirantes vindos da zona rural que, frequentemente, à noite, teriam um forró para “arrastar o pé”. Durante os festejos religiosos, antes de entrar na igreja e depois andar nos carroceis, primeiro ia-se ao engraxate... Afinal, chupar roletes de cana-de-açúcar com os sapatos bem lustrados era a elegância das festas da padroeira. Até finais dos anos 80, o centro da cidade de Caicó, nos arredores da Avenida Seridó e Mercado Público, existiam quase 60 engraxates, de todas as idades, hoje restam somente, seo Maurício e seo Tinor, este último com 46 anos no exercício da profissão. Ambos estão estabelecidos no Mercado Público e preveem que não demorarão a abandonar a atividade. “A procura é escassa, as pessoas já não procuram mais o engraxate para polir seus calçados,” dizem.

SAPATEIRO

Seo Silvino sapateiro aprendeu ofício ainda jovem

Outra profissão que era comum em nossa cidade era a de sapateiro. Era fácil encontra-los nos seus barracos ao longo das avenidas Seridó, Coronel Martiniano, Renato Dantas, Açougue Público e largo da rodoviária. A profissão de sapateiro ao estilo artesanal está quase em extinção, o ofício, que antes era ensinado aos jovens e passado de pai para filho é encontrada esporadicamente em algum recanto da cidade, ainda exercida por um ou outro agente desta arte. Em frente aos Correios, seo Silvino Emídio ainda mantém sua oficina que, segundo o mesmo, desde 1969 exerce o ofício de remontador de calçados (um adjetivo moderno para a profissão), sandálias femininas e outros arranjos de couro. Seo Silvino sapateiro começou como ajudante e apronte, para só depois se aperfeiçoar na técnica direta do conserto. Além de sapateiro o mesmo ainda trabalha como segurança privada. Sua oficina é o que há de mais original no ramo.

CONSERTADOR DE PANELAS

Antônios paneleiros, "panela velha é a que faz comida boa".

É na base da pressão que seo Antônio Ferreira (Toinho das panelas) trabalha há 35 anos consertando todo tipo de panelas, com especialidade em panelas de pressão, além de também exercer alguns consertos básicos em ventiladores. Toinho atende no interior do Mercado Público, mas por anos teve seu ponto na Avenida Seridó. Segundo Toinho, nesta profissão é comum as pessoas deixarem a panela para conserto e não vir mais busca-la, o que leva o mesmo a acumular grandes quantidades do vasilhame espalhadas pelas prateleiras da oficina. Pela facilidade que existe hoje para se adquirir peças novas no mercado, quando as panelas dão defeito, as pessoas preferem comprar outra e descartar a usada, o conserto de panelas virou uma segunda opção.

CHAVEIRO

Paquita é a "chave" do seu negócio.

Paquita das Chaves (Ailton Pereira de Medeiros) aprendeu a fazer cópia de chaves com o pai (seo Agenor) que era chaveiro. Um dos mais conhecidos copiadores de chaves da cidade, Paquita também é um dos poucos que restam.  Segundo ele, uns cinco ainda exercem a profissão. Desde a simples chave de um cadeado até a mais complexa chave de um automóvel, Paquita “desenrola o negócio”. É com ele mesmo. Há 32 anos neste serviço, onde divide seu tempo também como cambista de jogo do bicho, Paquita ainda é a chave de segurança dos esquecidos que, ao perderem suas chaves por ai recorrem ao copista para salvá-los desta agonia, afinal, quem um dia não se viu fora de casa ou sem puder abrir o carro por ter perdido suas chaves e não ouviu a frase salvadora, - chame Paquita!

Um comentário:

  1. Já fui socorrida por Paquita. Só pensamos no valor de um chaveiro quando ficamos do lado de fora de casa uma madrugada inteira.
    Texto muito interessante.

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