domingo, 27 de janeiro de 2013

A DEGRADAÇÃO DA MULHER ATRAVÉS DA MÚSICA


"Cacos das putas": a imagem da mulher na canção massificada
Por Mariângela Ribeiro
Bandas de forró (de plástico) são as que mais degereram a figura da mulher através de suas músicas de péssimo gosto
 
A música abaixo denuncia a discriminação e o preconceito declarados numa canção da banda Mastruz com Leite. Refiro-me a música -  Bomba no Cabaré, que diz o seguinte:
"Jogaram uma bomba no cabaré
 Voou pra todo canto pedaço de mulher
 Foi tanto caco de puta
 Voando pra todo lado
Dava pra apanhar de pá,
 De enxada e de colher!
No meio da rua tava os braços da Tereza
 No meio fio tava as perna (sic) de Raché
Em cima da telha os cabelo de Maria
 No terraço de uma casa os peito  de Isabé!
 Aí eu juntei tudo e colei bem direitinho
 Fiz uma rapariga mista,
 Agora todo homem quer
 Pode jogar uma bomba lá no cabaré
 Que eu junto os cacos das putas
 Pra fazer outra mulher".

O problema é que esse tipo de discurso é mais comum do que pode parecer aos ouvidos não poluídos pelos sons cotidianos de nossas cidades. Em Bomba no Cabaré encontramos um discurso social totalmente desrespeitoso com as mulheres em geral, e, particularmente, com as profissionais do sexo. Discurso que não é novo na música popular no Brasil. Mas que, atualmente, traz um teor de banalização a níveis antes inimagináveis. As letras criadas entre os anos 30 e os 70 parecerão inocentes...
Aos mais relativistas, esta afirmação pode soar preconceituosa ou moralista. Mas não o é. Destaco apenas a substituição da poética (que colocou a nossa música como referência mundial) por um naturalismo sem graça, para não dizer preconceituoso e violentador do sublime, do humano.
E não estou sugerindo que falta inspiração ou cultura aos criadores individuais da atualidade. Mas lembro que estamos tratando de canções fabricadas por uma indústria poderosa, que trabalha com padronizações, estilizando (e piorando) os elementos absorvidos do popular. Esta indústria cultural é expressão de um tempo marcado por mudanças nas práticas culturais, econômicas, políticas e sociais que se traduzem num individualismo profundo.
Neste mundo fundamentado em modos mais flexíveis de acumulação de capital, a atuação e influência dos meios de comunicação tornaram-se complexas. Com a fragmentação do processo produtivo, os elementos culturais ganharam novas feições fundamentadas em tecnologias de ponta: "a fórmula substitui a forma".
Para um público cada vez maior, novos produtos são criados com uma velocidade ímpar, legitimando o padrão cultural do "capitalismo tardio", isto é, o consumo enquanto "direito pessoal" que expressa "liberdade de escolhas".
Entendendo padrão cultural como a maneira de "estar no mundo", os valores que legitimam os comportamentos, conclui-se que, "no processo de globalização, a cultura de consumo desfruta uma posição de destaque. (...) ela se transformou numa das principais instâncias mundiais de definição da legitimidade dos comportamentos e dos valores" (Ortiz: 1998, p.10). Dito de outra forma, eu sou o que consumo. Minha identidade está nas mercadorias materiais e simbólicas que adquiro. Assim, independente da origem destas produções, elas revelam "denominadores comuns" do chão histórico em que são criados. Antônio Cândido nos ensina que estes denominadores são elementos sociais e psíquicos partilhados por uma determinada sociedade. A obra de cultura (nesse caso, a canção) é considerada, assim, um sistema simbólico que faz a mediação entre o indivíduo e o social.
Seguindo esta lógica, Bomba no Cabaré representa valores e comportamentos do nosso "senso comum" - que oferece elementos para a criação de bens simbólicos ao mesmo tempo em que é formado/confirmado pelo discurso divulgado pela mídia. O pior, numa rápida busca na internet, vi que este tipo de discurso naturalista e agressivo/desrespeitoso às mulheres (e também aos homossexuais e aos transexuais, que aqui não tratarei) é encontrado nos gêneros musicais mais populares da atualidade, como os forrós estilizados e o funk carioca. Mastruz com Leite está entre os chamados forrós estilizados e seu discurso não se distancia de tantos outros, como demonstram canções de Cavaleiros do Forró e Calcinha Preta. Na referida pesquisa virtual, as letras deste estilo trazem fortemente a ideologia machista clássica.
Uma do grupo Cavaleiros do Forro chamada Esporte de Mulher (Karatê) diz assim:
"Homem gosta de forró
De cachaça e de mulher
Seu esporte é o futebol (...)
Mas o esporte de mulher é o karatê
O cara ter um carro
O cara ter dinheiro
O cara ter fazenda
Não precisa ser solteiro
Não precisa ser bonito
Basta só o cara ter".

 Segundo compositores como João Ribeiro (de Esporte de Mulher), a mulher é colocada não só como um ser em busca de dinheiro, status financeiro, mas como alguém incapaz de pensar em outros meios de obtê-los. Não se cogita outras formas dela conseguir a posição/riqueza que deseja. A única saída é arrumar um homem que realize seu "sonho".
Os politizados Racionais MC's também afirmam esta ideia em - Mulheres Vulgares:
"Se liga aí: derivada de uma sociedade feminista
Que considera e dizem que somos todos machistas
Não quer ser considerada símbolo sexual
Luta para chegar ao poder, provar a sua moral
Numa relação na qua
Não admite ser subjugada, passada para trás
Exige direitos iguais...
E o outro lado da moeda, como é que é?
Pra ela, dinheiro é o mais importante
Seu jeito vulgar, suas ideias são repugnantes
É uma inútil que ganha dinheiro fazendo sexo (...)
Fique esperto com o mundo
Mulheres só querem preferem o que as favorecem
Dinheiro, ibope, te esquecem se não os tiverem..."

Mas, "pra não dizer que não falei das flores", encontrei uma letra da funkeira Tati quebra barraco que diz:
 "Tapinha nada
Nu meu homieu dou porrada
Para de marra e desce desse palco
Que aqui no meu cafofo
Sou eu que falo mais alto".

O que, é claro, não afeta em nada o meu argumento. Inexiste neste discurso um questionamento sobre a forma como a mulher é exposta, o que fica confirmado por sua performance de palco, que reforça a ideia de "mulher objeto".
A resposta de Tati quebra barraco mostra que o desrespeito não vem só dos homens, revelando um tipo de sociabilidade que se fundamenta no uso da violência e, neste sentido, embrutece tanto homens como mulheres. Esta letra sugere que a igualdade entre homens e mulheres deve se dar oferecendo aos dois sexos a mesma condição para se "dar porrada", reforçando o ditado popular olho por olho, dente por dente. É por isso que, contrariando outra máxima popular, gosto não se discute, devemos sim, refletir sobre o que significa essa produção cultural que se legitima na palavra "entretenimento". Tais produções de massa (e o consumo subsequente) reafirmam uma visão de mundo machista, indo de encontro a todos os avanços legais e simbólicos que veem tentando diluir as desigualdades de gênero.
A música é o mais cotidiano dos objetos culturais ao circular em todos os meios (cinema, televisão, propagandas publicitárias, rádios, ciberespaço) e, neste sentido, muito pode revelar de nós mesmos e do mundo em que vivemos através de ações diversas contra bens simbólicos que insistam na reificação da figura feminina ou no incentivo à violência contra a mulher.
 * Mariângela Ribeiro é mestre em sociologia e faz parte da equipe do Gajop (Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares).

Um comentário:

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