sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ENTRE O AMOR E AS PALAVRAS

Por Antônio Neves
“Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
 E de uma só maneira eu o proclamo.”

Coisas da afetividade; o amor, literário, camoniano, surreal, ainda se alimenta daquelas frases feitas, tipo, - “você é o amor da minha vida!” – são frases de efeito que, mesmo recheadas de paixão, soam meio repetitivas e revela um romantismo individualista, incorporado pela carência de quem a repete o tempo todo, como uma necessidade de si mesma, e não do outro. Puro egoísmo pelo amor alheio...

Prefiro as frases nunca ditas, aquelas guardadas no silêncio da espera, para ser faladas nos momentos mais inesperados. Reveladas pela surpresa do não dito, e, envolvidas pela alegria do saber dizer. Falas de Amor repetidas assumem uma textualidade de novela, e nas novelas nada é tão real que mereça ser atenuado por cumplicidade, por mais que seja envolvente. As palavras fúteis de amor, ditas e repetidas como cenas cinematográficas, são envolventes, mas de pouca consistência, pois como o amor na sua órbita cenográfica, perde a relatividade ao final do último capítulo.

Se o amor é cego, as palavras que o afirmam podem ser facas cortantes que mal manuseadas traem quem as proclamam na emoção de cada beijo, cada gozo, cada suspiro de paixão embevecida pela essência do ser que navega nas suas possibilidades do não ser.

Amores construídos no desejo das palavras são, quase sempre, cheios de sonhos e vazios de realidade, não resiste à gramática inteira, esbarra na elegância romântica do verbo Amar, subsiste na primeira pessoa do singular, vira pretérito com tamanha indelicadeza, por não compreender o futuro que a sua singularidade circunda para resistir ao imperfeito que repousa em si mesmo. Não é amor, é retórica fantasiosa para afagar a sanha do ego sentimentalista, atitudes comuns a muitos dos mortais.

Palavras de amor, cartesianas, moldadas sob regras e critérios figurativos são mesmo assim... Frases fisiológicas que tecem aquilo que não é; não sente e não resiste a sua própria linguagem de promessas e repetições voluntariosas de felicidade e sentimento condicionado, pura ficção. Engana a si e ao tempo pela fragilidade das suas inquietações em afirmar-se cotidianamente perfeitas.

Prefiro o não dizer; preservar o sentir, sustentar o resistir. Se for difícil entender pelas palavras, ouçamos por fim, o silêncio, às vezes ele revela o amor muito mais que mil palavras ditas.

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