quinta-feira, 10 de março de 2016

COM-TRASTES


por Cristina Hahn - psicóloga e sexóloga clínica
Chuvas que inundam vidas, vidas secas que morrem de sede de viver.
Homens cruéis escapam porque matam. Homens bons condenados, justiça que possui leis contra a própria lei...
Crianças adultas que brincam de sofrer no viver, "adultos-crianças" que não sofrem por somente brincar de viver.
Olhos vivos na vida ilusória da televisão, cegueira total diante do real vivido.
Mentiras contadas como verdades, verdades mentidas em nome do contar.
Pessoas morrendo de fome em busca da perfeição, fome matando pessoas imperfeitas pela inanição.
Produtos em prateleiras de liquidação, pessoas vendendo o corpo: produto liquidado pela falta de noção.
Carros novinhos em folha lotando os estacionamentos enquanto motoristas doentes esperam na fila do S.U.S por um atendimento médico.
Pais dando lições sobre a importância de não usar drogas, brindando diariamente com uma cervejinha a sorte de ter filhos ajuizados.
Igrejas lotadas de fiéis, escolas vazias por falta de cadeiras para sentar.
Mulheres sem cabeça ganhando fortunas para mostrarem o corpo nu, 'mulheres cabeça" penando por uma colocação no mercado da sobrevivência.
Mãos zelosas que afagam os cabelos das criancinhas, mãos grotescas que castigam imoderadamente esses pequenos seres.
Livros com lições de vida eternas mofando em bibliotecas, revistas de caras e bundas chiques sendo LIDAS com a máxima atenção.
Novelas dando exemplos ricos da desonestidade humana, humanos sendo ridicularizados por escolher a retidão.
A AIDS matando sem pena, um povo cantando melodias da promiscuidade sexual.
Brasileiro reclamando de falta de dinheiro enquanto milhares pagam mil vezes por uma ligação para eliminar o próximo Big brother da Televisão.
Protestos diários contra o governo, votos repetidos em todas as eleições.
Reza pedindo ajuda a Deus, mandamentos violados em nome do possuir.
Pedidos de equilíbrio, cordas bambas pela impulsividade das emoções passageiras.
Súplicas de amor, promessas descumpridas no primeiro desencontro dos corações.
Palavras bonitas faladas de dia, à noite caladas pelo silêncio do apenas "ficar".
Com- trastes vivemos porque desaprendemos a enxergar o que nos afasta do que somos, do que desejamos, do que realmente acreditamos...

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