sexta-feira, 7 de agosto de 2015

SAUDADE DO PUDOR

Por Cristina Hahn
Pesquisei o significado de pudor e dentre as definições que encontrei, destaco essa: Discrição, recato que impede que se diga ou se faça algo que ofenda a decência, a honestidade, a modéstia; pejo, vergonha. Escrevo por ver, escrevo por observar, escrevo por escutar. Escrevo por experiência, escrevo por desejar questionar.
Tenho saudade do pudor... Do tempo em que o subentendido era mais interessante, despertava a curiosidade, apimentava a fantasia. Tenho saudade do pudor: do tempo em que o coberto escondia a beleza e a beleza escondia um interior ainda mais belo. Tenho saudade do pudor: do período em que as descobertas eram determinadas por um processo, sem pressa, sem agonia de conclusão. Tenho saudade do pudor: daquele que guiava os atos pelo tempo de cada um e não pelo desejo desenfreado unilateral de não conter. Tenho saudade do pudor: da vergonha de abrir a boca para falar tantas bobagens que ferem os princípios daqueles que verdadeiramente têm valores.
Tenho saudade do pudor: do olhar de respeito que podia incluir admiração, mas sem tanto apelo sexual. Tenho saudade do pudor: das vestimentas que ocultavam um corpo para despertar a fantasia criada pelo desejo do não visto. Tenho saudade do pudor: do manter em segredo em nome do desvendar da sedução. Tenho saudade do pudor: do tempo em que tirar a roupa era parte de um ritual de revelação consequente de uma relação a dois. Tenho saudade do pudor: das palavras que formavam poesia que eram música para os ouvidos de quem ama.
Tenho saudade do pudor: do recato em nome do resguardo e não do moralismo hipócrita. Tenho saudade do pudor: do implícito, do não dito, do não mostrado por completo pela simples beleza de se preservar. Tenho saudade do pudor: do tempo em que não havia as despudoradas subcelebridades que surgem da noite para o dia e viram padrões de comportamento. Tenho saudade do pudor: da época em que um beijo tímido era início de um vínculo e não o fim de uma ficada. Tenho saudade do pudor: da vergonha de constranger o outro, do mal-estar em se expor sem medidas, do constrangimento em agredir o direito do outro.
Não levem esse texto como um relato moralista. Essa não é a intenção. Desejo apenas causar reflexão. Está tudo tão claro, sem reservas, categoricamente expressado que não deixamos mais espaço para as vivências exclusivas... Não reservamos lugar para o ato participativo de cada um de nós nas descobertas, nas escolhas pessoais. Tudo pronto, "fast", "delivery", nada a ser inventado, criado, desenvolvido, verdadeiramente autoria nossa. Tudo pronto, "enformado", fabricado e sem pudor de parecer e aparecer... Vivemos numa época do exibicionismo, da felicidade "facebookiana" que mostra imagens muitas vezes para esconder verdades. Tudo pelo ter sem pudor e o ser cada vez menos valorizado, mais recalcado.
Como consequência, vejo depressão sem pudor, transtornos psiquiátricos sem limite, doenças desavergonhadas do espírito, seres inanimados de si e despudorados pelo parecer. Saudades...
Cristina Hahn, psicóloga e sexóloga clínica

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