terça-feira, 7 de junho de 2016

APRENDENDO A VIVER

Cristina Hahn
Sexóloga e psicóloga

A gente sabe muito pouco da vida, não é? A gente espera que tudo seja do jeito que idealizamos e passamos grande parte do tempo frustrados por não alcançar o almejado. Vivemos na espera que a ordem das coisas seja estabelecida conforme nossa visão do que é prioridade e esquecemo-nos da força superior que nos conduz tentando, a cada minuto, nos provar que as lições estão sempre em nossa cara. Pena que não sabemos usar os olhos numa visão periférica e os ouvidos numa escuta aguçada.
Quando planejamos algo, as expectativas formam uma crença de que nada poderá sair do lugar e do jeito que idealizamos. Caso isso ocorra, tudo parece perdido e perdemos literalmente o poder de analisar o todo, tirar o bom da história, aprender com os erros. Fico impressionada como jogamos tempo precioso fora em busca de uma causa perdida que dói porque toca em nossa dificuldade inerente de perder e em nossa impossibilidade de reconhecer os ganhos.
Tenho apanhado um bocado por não aceitar as condições do amadurecer. Tenho sofrido pela resistência de acreditar que tudo tem que sair ao meu modo, com diretos autorais e sem qualquer alteração. De uns tempos para cá, preferi recolher-me à condição humana e permitir que o curso do rio mude, ainda que não siga a rota que escolhi como a ideal. Isso tem me permitido dar nova mistura às cores que defini como padrões.
Abri meu coração para novas viagens, embarquei sem malas prontas. Deixei que o tempo definisse meu vestir e acompanhei o clima sem me "pré-ocupar" com a chuva. Deixei o vento bater no meu rosto mesmo tendo como regra o incômodo de "assanhar meus cabelos": andava com uma escova na bolsa e em minutos poderia pentear novamente minhas madeixas. Tão simples.
Aceitei conhecer aquelas pessoas que a princípio não me agradavam. Na verdade, não me agradavam por não corresponderem as "minhas" expectativas. Conhecer pessoas significa deixar-se tocar pelo diferente, pelo novo. Conhecer pessoas significa abandonar o vício do narcisismo exagerado e olhar para os lados imaginando encontrar o belo no outro.
Nem sei por que andei tanto tempo sem observar a vagarosidade dos meus passos em direção ao crescimento pessoal. Quanto tempo perdi, presa nas rédeas da amargura de não ter vivido o que eu acreditava ser o melhor para uma criança. Não sou mais uma criança e como adulta posso modificar meu presente em busca de um futuro melhor. Chega de atribuir culpas ao que, na verdade, não passou de escolhas pessoais erradas, mas embaçadas pelo nosso direito de acusar o próximo.
Estou cansada de reclamar, já não consigo mais apontar culpados por aquilo que eu fiz. Parece que cheguei no estágio de "total responsabilidade" pela direção que sigo e pelos lugares que escolho como moradias dos meus sentimentos. Não consigo mais olhar no espelho e ver o outro como causa do meu sofrimento. Vejo marcas de dores que eu deixei não cicatrizar. A diferença é que não tento mais escondê-las por não poder suportá-las. Carrego-as comigo como parte de mim, como registro do caminho percorrido pelo amadurecer. Não as cultivo, mas respeito sua existência.
Olho-me no espelho e vejo os anos definindo meus traços. Em menos de um ano, limpei minha pele, trouxe brilho aos meus cabelos, criei curvas no meu corpo. Isso não foi cuidado estético: Foi resultado do que hoje reconheço como felicidade; foi consequência de relaxar. Sem deixar rolar os acontecimentos. Em fechar os olhos e abrir meu coração à visão das emoções...

Nenhum comentário:

Postar um comentário