sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

AMOR DE IGUAL


Por Isaac Ribeiro

Atenção, jovens mancebos paqueradores. É bom estarem atentas na hora das piscadelas e cantadas fortuitas nas festas, bares ou shows, pois do lado de sua pretendente, de olho em você, pode estar a namorada... dela! Sim, porque é cada vez mais frequentes casais de meninas na faixa dos 18 anos - às vezes um pouco mais, um pouco menos - de mãos dadas, trocando carinhos e até mesmo beijos em locais públicos. Mas afinal, mudaram as meninas ou mudou a sociedade?

O preconceito ainda é grande, é verdade, mas sente-se também uma aceitação muito maior. Afinal, faz tempo que lutamos por igualdade de direitos, liberdade sexual e de expressão e mais tolerância para todos. E o que será que os pais pensam disso? Muitos preferem culpar as amizades ou a influência da mídia, com o número crescente de personagens gays, seja em reality shows ou, principalmente, em novelas. Revelar-se, assumir-se homossexual é um momento delicado e de libertação, quase sempre envolto em conflitos, medos, incertezas e preconceito, tanto para quem assume quanto para a família. Além de certa frustração por parte de alguns pais, abastecidas na tradição, há também a preocupação de proteger os rebentos dos intolerantes e da violência que se vê hoje nas ruas e estampadas nos noticiários. 

A psicóloga Débora Sampaio escolheu a homossexualidade das meninas adolescentes como tema de seu doutorado, motivada, entre outros, pelo aumento de casos de pais preocupados com a opção sexual de suas filhas, em busca de orientação. De acordo com o que ela tem observado em seu cotidiano de consultas, os conflitos são maiores nos pais; muito menos do que nas garotas. Neles, logo após a revelação, surgem os questionamentos e a busca por um culpado, mesmo que sejam eles próprios. "Onde foi que eu errei?", "O que foi que eu fiz?", "Foi porque eu me separei?", "Será que não dei muita atenção a ela?", "Será que foi porque eu não a acompanhei?"

Débora Sampaio ressalta ser a adolescência um período de muita vulnerabilidade, onde se abrem os caminhos para as experimentações. Sem generalizar, nada é definitivo nessa fase; a menina pode ficar com a amiga, o rapaz pode ficar com o amigo, e mesmo assim não serem homossexuais de fato, como argumenta a psicóloga. "É o momento em que o jovem consolida a sua identidade sexual, que muitas vezes já vem desde infância. Pode ser ocasional, situacional? Pode! Por exemplo, a adolescente pode ter ido para uma festa com as amigas e elas convidarem para experimentar como é ficar com uma menina... Pode ser por influência, a experimentação." Porém, segundo ela, o ato de assumir-se homossexual dificilmente é motivado apenas por influência.

"A identidade homossexual não é escolha. Isso é muito claro. Mas também não é doença e nem perversão, como se colocava antigamente. Até a década de 40, eu acho, existia no CID-10 (Código de Classificação Internacional das Doenças), o homossexualismo como doença. Mas isso já foi retirado. Não falamos nem mais 'homossexualismo', porque o termo "ismo" já dá o indicativo de patologia. Falamos de 'homossexualidade' porque tem a ver com sexualidade. Então, no caso, a homossexualidade não é doença", analisa a psicóloga.

Sem acreditar muito em uma possível "colaboração" de personagens gays em novelas na tevê aberta como forma de incentivo para que o mal resolvido se assuma, nossa personagem considera ter a mídia o papel fundamental no suporte social a quem se sente discriminado em seu próprio meio, fortalecendo a coragem de enfrentar todos aqueles que acham que ser gay é ser diferente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário