quinta-feira, 19 de maio de 2016

A ARTE DE VIVER A DOIS

Por Cristina Hahn – psicóloga e sexóloga clínica
Nesse mundo de "fast food, fast desire, fast Love", onde a rapidez e a fugacidade fazem parte do mundo globalizado, não há como não refletir sobre a arte de viver a dois. Cada vez mais o hedonismo nos invade particularmente: temos nos concentrado muito no prazer de vivermos sozinhos, porém acompanhados. Sozinhos nos nossos sonhos, sozinhos nos nossos desejos, sozinhos no nosso prazer. Estamos sim acompanhados, muitas vezes, de alguém que possa permear nossos anseios, mas não alguém que esteja verdadeiramente ao nosso lado, caminhando junto ainda que separados, com respeito à individualidade, mas seguindo uma mesma direção.
Quando duas pessoas desejam se unir, é preciso "criar" um espaço no qual se possa desenvolver a capacidade de viver a dois, encontrar dentro da relação, soluções criativas à medida que os empecilhos aparecerem e aprender - porque é ordem do aprendizado - a desfrutar todas as formas de viver bem a dois. Por isso falo de arte... Como imaginá-la sem a verdadeira expressão criativa?
Quando há o real desejo de "ficar", no sentido de "permanecer" juntos, consequentemente haverá o aperfeiçoamento no "trabalhar" em cima dos pensamentos, sentimentos e emoções antes que estes se transformem em palavras e ações que possam sabotar nossa vida. Esse é o caminho que nos leva o autoconhecimento e nos permite descobrir a nos mesmos e ao outro. Saber que encontraremos beleza na junção de duas vidas que se somam é uma verdadeira obra de arte.
Conviver com alguém que amamos é uma arte porque encarar a expressão do "ser" do outro com olhos da alma, requer uma percepção aguçada para enxergar a beleza desse ato. É disponibilizar-se para deixar-se ver sem máscaras, nuamente puro no sentido da genuinidade. É aceitar que ainda que essa "expressão artística do ser" nos pareça estranha, diferente, reúne uma beleza inigualável por ser única. Mas essa arte exige acima de tudo, capacitação. E para capacitar-se, muitas vezes faz-se necessário o esvaziar de preconceitos, crenças arraigadas, mitos de um modelo de parceiro que se encaixa com o padrão estabelecido pela nossa biografia. Por isso, certamente a dificuldade. Mais fácil tentar moldar o que parece estar fora da fôrma que criamos como protótipo do ideal, do perfeito: inevitavelmente frustrante.
Se existe amor, desistir não nos aperfeiçoa. Pelo contrário - nos faz carregar para sempre a frustração de não ter tentado mais uma vez. Apesar da promessa do "até que a morte os separe", no primeiro resfriado, classificamos a relação em um prognóstico reservado, em fase absolutamente terminal. Não usamos nem um décimo das terapêuticas básicas possíveis, mas escolhemos abandonar o barco que parece, no momento da crise, estar remando num mar turvo, denso, agitado e sem um porto seguro. Abandonamos porque permanecemos focados num só ponto e cegamos para a imagem que totaliza um grande amor. É preciso arte para amar e para isso ser arteiro - Astuto, sagaz, para "re-criar" a arte de viver o amor, a dois...

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