quarta-feira, 23 de novembro de 2016

TELHADO DE VIDRO

Por Cristina Hahn
Não sei explicar o que venho sentindo quando me deparo com mais uma notícia na televisão sobre algum parlamentar que se envolve em algum escândalo. Na verdade, talvez precise corrigir a palavra escândalo... Não seria hábito? Não só dos políticos, mas de um povo?
Somos um povo que se choca com esses escândalos diários, mas não temos vergonha nenhuma de realizar alguns "pequenos delitos" que fazem da "esperteza brasileira", a moeda Real da vida atual. Vejo que as coisas estão erradas porque a educação foi deixada de lado há muito tempo... Conceitos básicos do que é certo e errado não passam de chacota quando alguém ainda tenta mantê-los. Valores se resumem aos preços das coisas, das pessoas, dos sentimentos... Um povo que valoriza mais o enriquecer da noite para o dia muito mais do que a beleza de construir uma família rica de moral. Um povo que se orgulha do vizinho que conseguiu puxar a energia de outro, mas que é cruel ao condenar um homem desesperado que rouba uma lata de sardinha para matar a fome que o vem matando.
Somos um povo que fala de ecologia atirando lixo nas ruas e reclamando que o governo não limpa os esgotos... Somos um povo que espera respeito do próximo ao mesmo tempo em que finge dormir no ônibus para não ter que dar lugar a um idoso de pé... Somos de um país onde a "lei seca" é encarada como "sem sentido" porque, orgulhosamente "sempre dirigi embriagado e nunca sofri nenhum acidente"...
Eu vivo num país que passar num vestibular é questão de honra, mas fazer um curso levando a sério o que é estudar, aí é coisa de "nerd". Somos um povo que desconhece o que é limite, mas condena os filhos que não sabem o que é a palavra não. Vivo num país que se hipnotiza com as novelas globais e se assusta quando o aprendizado delas invade seu lar, doce lar. Eu vivo num país que ainda acredita que música é algo que une palavras sem nexo, frases sem sentido, idéias medíocres num ritmo totalmente repetitivo e vazio de tudo que possa valer a penaescutar, mas que deseja que o romantismo invada as relações. Eu vivo num país onde o povo busca estabilidade num emprego, mas é campeão no quesito atestado médico, atraso diário e mau desempenho.
Eu vivo num país onde o povo se escandaliza com os políticos, mas não consegue perceber que para atirar uma pedra, é preciso não ter telhado de vidro... Cada político que vem trabalha por nós, conosco e como podemos exigir "bom comportamento" se não somos exemplo de povo? Foi Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma: como poderíamos desejar que as coisas mudassem se ainda somos um povo mal educado? Eles são o retrato do povo que os elege, por que esperamos resultados diferentes? Seria preciso primeiro erradicar os vícios que temos para que possamos exigir que o futuro mude. Não pode haver futuro melhor sem que haja um povo melhor...

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