segunda-feira, 18 de agosto de 2014

SEXO E PRAZER POR DINHEIRO

Por Regina Navarro Lins
Regina Navarro conta a história de prostitutas e diz que profissionais são guardiãs da moral sexual da sociedade. Instalada a relação opressor/oprimido, muitas mulheres usaram o corpo como arma de defesa
Quando eu estava escrevendo o capítulo 'Prostituição', do meu primeiro livro, "A Cama na Varanda", deparei-me com algumas questões. Quem são as garotas de programa? O que sentem e como veem a atividade que exercem? Para responder a isso, entrevistei algumas, com idade entre 20 e 27 anos. A seguir transcrevo o relato de uma delas:
Claudete é loura, tinha 25 anos. Extrovertida orgulha-se de seu corpo escultural: “Perdi a virgindade com 22 anos. Sempre tive vários namorados ao mesmo tempo, mas minha mãe controlava minha virgindade. Ela me ameaçava, dizia que ia descobrir pelo meu corpo, pelo meu jeito de andar. Minha irmã era modelo e conhecia muita gente, aí veio o convite pra eu vender minha virgindade por mil dólares. O cara só pagava se eu fizesse exame para comprovar que era virgem. Senti medo, mas tirei de letra. Era um coroa bonito. Daí em diante, continuei. Pela propaganda, várias cafetinas me procuraram. No início sentia repulsa, depois passa a ser um trabalho. Não me envolvo com os clientes, mantenho distância.
Depois que vendi minha virgindade, descobri que tinha o hímen complacente. Aí, a cafetina arranjou um árabe e vendi novamente por dez mil dólares. Ela ficou com metade. Meus planos pro futuro são: gastar muito dinheiro com roupa, amigos e farras. Estou querendo parar, mas não dá pra ser de repente. Tenho que comprar pelo menos um carro. Se trabalhar muito, dá pra ganhar mais. Já tive noite de sair com três ou quatro clientes, eles pagam bem, metade fica pra mim. A maioria que nos procura é homem casado. Sou temperamental. Quando o homem é nojento, vou embora. O que eles mais gostam? Que eu transe com outra mulher pra eles verem.
Sendo as prostitutas as guardiãs da moral sexual da sociedade, o seu verdadeiro crime é revelar a hipocrisia dessa dupla moral. No dicionário encontramos a seguinte definição: “mulher que pratica o ato sexual por dinheiro”. Então, quantas mulheres casadas, respeitadas e valorizadas socialmente se prostituem com seus próprios maridos? Quantas moças são educadas para só se casar com homens que lhes possam dar conforto e dinheiro? Quantas mulheres solteiras só aceitam ir para um motel com um homem se antes ele pagar o jantar num restaurante caro?
É impossível calcular, mas nada disso é falado. Tudo se passa por baixo do pano para que a respeitabilidade dessas pessoas seja preservada. A prostituta é desprezada, mas a única diferença é que seu jogo é claro. Ela não se preocupa em fingir. “Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento a única diferença consiste no preço e na duração do contrato.”, diz Simone de Beauvoir, em seu livro O Segundo Sexo.
Essa é uma história bem antiga. Quando o patriarcado se estabeleceu, há cinco mil anos, a mulher tornou-se um objeto que podia ser comprado, trocado ou repudiado. Instalada a relação opressor/oprimido, a mulher não encontrou alternativa. Usou a única arma que tinha para se defender: o seu corpo. Controlando a satisfação das exigências sexuais masculinas, conseguia obter em troca vantagens, assim como joias, vestidos, perfumes.

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