terça-feira, 1 de março de 2016

MUITA TECNOLOGIA, POUCA INFORMAÇÃO?

ARTIGO: Sociedade da desinformação

Por Severino Francisco

A cada novo cacareco tecnológico surge um profeta anunciando um novo tempo. É claro que qualquer invenção tecnológica provoca mudanças em nossos valores, mentalidades, hábitos e comportamentos. Mas é discutível se essas inovações produzem necessariamente e automaticamente mudanças qualitativas. Os profetas da era virtual vaticinaram que as tecnologias da informação propiciariam a emergência de um admirável mundo novo de seres humanos mais inteligentes, ilustrados, criativos, imbuídos de consciência sobre questões coletivas, noções de cidadania e direitos humanos.

Simultaneamente ou paralelamente a abertura de inúmeras possibilidades de experiências de comunicação e educação proporcionadas pelas novas tecnologias, à sociedade da informação convive com a realidade de um inquietante crescimento do número de analfabetos funcionais, tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. No caso de países como o Brasil, em que a era virtual chegou sem que tivesse se sedimentado uma tradição letrada, a situação adquire um acento mais dramático.

Evidentemente, esse quadro delineado em rápidas pinceladas implica em graves consequências para a educação, a cultura e a democracia. Se a leitura e os livros sempre foram instrumentos essenciais para o desenvolvimento da reflexão, da imaginação, do domínio da linguagem e do exercício do senso crítico, eles adquirem uma relevância ainda maior no contexto de uma sociedade da informação, marcada por inovações tecnológicas vertiginosas, pulverização das mensagens, dispersão das fontes de conhecimento, império do mercado e das dissimulações do marketing. No caso da cultura, se é preciso reconhecer a vitalidade de novas linguagens (rap, videoclipe, grafite, sites, entre outras), de outra parte é necessário registrar que a ausência de contato dos adolescentes com o livro implica em uma ruptura com todo o legado cultural da humanidade acumulado durante séculos. É como se a história da humanidade tivesse começado com o roqueiro Charlie Brown Jr ou com a dupla Sandy e Júnior.

No campo da educação, essa postura defensiva se traduz em uma melancólica divisão, para as crianças e os adolescentes: de um lado a televisão, com seus mil e um jogos de sedução, apelos ao prazer, artimanhas lúdicas, promessas de felicidade – e de outro o livro, concebido como objeto de conhecimento, razão, disciplina, conhecimento. No Brasil, graças a uma geração de escritoras de grande talento, como é o caso de Ruth Rocha e Ana Maria Machado, a professores abnegados e a uma lei que abriu espaço para a literatura infantil nos currículos das escolas do Ensino Fundamental, as crianças tem contato com o livro como objeto de prazer. Toda criança gosta de ouvir histórias. Mas a situação se complica na passagem da infância para a adolescência.

O escritor argentino Jorge Luis Borges também vai à mesma direção de Asimov: “Dos diversos instrumentos inventados pelo homem, o mais espetacular, sem dúvida, é o livro”. Os demais são extensões do seu corpo. (...) O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Ou seja: é necessário dizer, com todas as letras, que o livro permanece uma tecnologia de ponta, a ser não apenas preservada, mas integrada e articulada com as outras tecnologias de comunicação e de arte. As novas tecnologias descortinam possibilidades de experimentações inéditas de educação e cultura para crianças e adolescentes. Mas, sem a conexão com o legado inscrito nos livros, as mais sofisticadas tecnologias de comunicação, se reduzem a cacarecos eletrônicos, explorados de uma maneira mecânica, rasa ou mesmo deletéria: “Somos o que lemos, mas também o que não lemos”, alerta o escritor argentino Alberto Menguel.

No livro A Televisão Levada a Sério, o crítico e professor Arlindo Machado reivindica uma tradição inventiva para a televisão no mesmo plano de todas as outras linguagens contemporâneas. Contudo, insolitamente, em sua lista dos 30 melhores programas de televisão, nos deparamos com Glauber Rocha, Guel Arraes, Jean-Luc Godard, Peter Greeneway, Micheangelo Antonioni, Num June Paik, Robert Altman, Ingmar Bergman, John Cage, gente que não nasceu dentro de um tubo de televisão ou de uma rede da Internet. Gente com amplo trânsito pelas múltiplas tecnologias (fotografia, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, vídeo arte) mediadas pelo livro. Por isto seria importante fazer com que as novas gerações superassem a relação antagônica e maniqueísta livro versus televisão, livro versus Internet, livro versus rock. O livro é uma tecnologia cultural que intensifica, amplia e sofistica as possibilidades expressivas de qualquer outra mídia ou tecnologia de informação. Mas, para que isso ocorra, de fato, é necessário o empenho de educadores, meios de comunicação eletrônicos, artistas, escolas e outras instituições no sentido de se formular uma pedagogia do prazer para os jovens no contato com os livros. É a única possível em uma sociedade mediada pela intervenção de meios de comunicação regidos por princípios hedonistas e lúdicos.

Por mais que esteja armada por um poderoso arsenal de tecnologias de informação, uma sociedade que produz uma legião de analfabetos funcionais é uma sociedade da desinformação. Para que cumprissem as predições dos profetas da era virtual, as tecnologias da informação precisariam agregar valores éticos, educacionais, sociais, humanistas, culturais, artísticos e espirituais. Valores que se encontram encerrados no livro como em nenhuma outra tecnologia da informação: “A ciência é exasperadamente lenta”, já nos alertava, em pleno século 19, o poeta-vidente Jean-Arthur Rimbaud.

Severino Francisco é Jornalista, Editor do Jornal Radcal, Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília e professor de jornalismo do Uniceub

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