terça-feira, 1 de março de 2016

CÂNCER E AGROTÓXICOS

Estudos sugerem que aumento do câncer segue ritmo do lucro com agrotóxicos
Apesar de todos os efeitos negativos apontados por estudos, a indústria dos agrotóxicos não para de crescer
Por José Coutinho Júnior
Dois estudos que associam o uso de agrotóxicos ao surgimento do câncer na população brasileira foram lançados na semana passada. O dossiê feito pela Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde aponta que um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado. O estudo foi feito a partir da análise de amostras coletadas em todas as 26 estados do Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca) sobre o câncer relacionado ao trabalho, que registra em torno de 500 mil novos casos da doença por ano, aponta que muitas dessas pessoas foram contaminadas por agrotóxicos (seja na sua aplicação e exposição pelos trabalhadores nas lavouras, seja no acumulo de veneno nos alimentos). O estudo afirma que os venenos agrícolas devem estar no centro da preocupação da saúde pública, devido ao grande número de estudos anteriores que apontam o potencial cancerígeno dos agrotóxicos, além da ocorrência de outros agravos relacionados a esses produtos.
Uma série de agrotóxicos comprovadamente causa câncer, como o DDT/DDE, o 2,4-D, o lindane, o clordane, o agente laranja, o aldrin, o dieldrin, o alaclor, a atrazina, o glifosato, o carbaril, o diclorvos, o dicamba, o malation, o MCPA e o MCPP ou mecoprop. O estudo relaciona câncer de mama, estômago e esôfago, cavidade oral, faringe e laringe e leucemias ao uso dos agrotóxicos. Essas substâncias produzidas por grandes empresas transnacionais do agronegócio contaminam os alimentos consumidos e causam doenças nos trabalhadores que trabalham na  aplicação nas lavouras.
De acordo com o estudo, a população rural é uma das mais afetadas, pois é o setor mais exposto aos agrotóxicos. Por fim, os venenos também são responsáveis por contaminar as águas e tornar terras inférteis. Apesar de todos os efeitos negativos apontados por estudos, a indústria dos agrotóxicos não para de crescer. Dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostram que, entre 1990 e 2010, o Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Nesse período, o mercado brasileiro de agrotóxicos cresceu 576%, dando um lucro de US$ 7,3 bilhões às empresas produtoras de venenos.
Sob o discurso de acabar com a fome do mundo por meio do aumento da produtividade, o agronegócio se utiliza dos agrotóxicos para controlar pragas causadas pelo próprio modelo baseado na monocultura. Ao plantar apenas uma cultura em larga escala, acaba com a diversidade local, o que dá origem a várias pragas, que demandam a utilização dos venenos. Além disso, a legislação brasileira permite diversos compostos químicos que já são proibidos em outros países, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, que têm leis mais rígidas. Segundo a Anvisa,14 agrotóxicos comercializados no país são comprovadamente prejudiciais a saúde e já foram proibidos em outros países. 
A maior utilização dos agrotóxicos se dá nas lavouras das commodities. Em 2010, a soja utilizou 44,1% de todos os venenos do país; algodão, cana-de açúcar e milho foram responsáveis por 10,6%, 9,6% e 9,3%, respectivamente. As plantações de outras culturas representam 19% do consumo total. Como as commodities são tratadas como qualquer mercadoria, o intuito do agronegócio e do uso abusivo de agrotóxicos não é acabar com a fome, mas o lucro.
Por que os agrotóxicos dominaram a produção rural brasileira? Segundo cartilha lançada pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a chamada “Revolução Verde” imposta pela Ditadura Militar abriu a porta para a entrada dos venenos no Brasil. Com essa “revolução”, a agricultura do Brasil foi aberta para a exploração de empresas transnacionais, que venderam aos latifundiários, máquinas responsáveis por expulsar boa parte dos camponeses, aumentar a concentração de terra e a pobreza, além dos agrotóxicos para o controle das pragas na lavoura.
A “Revolução Verde” buscou apagar da memória as formas antigas de proteção das lavouras, substituindo-as pelos agrotóxicos. Esses venenos se tornaram, de lá para cá, um dos pilares para o modelo de desenvolvimento agrário adotado pelo Brasil, o agronegócio. A criação e uso das sementes transgênicas também incentiva o consumo de agrotóxicos, pois estas sementes são resistentes a um tipo de veneno específico produzido pela mesma empresa que vende as sementes.
Fonte MST

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