sábado, 27 de agosto de 2016

TOMAR UMA, TOMAR TODAS

Por Cristina Hahn
Psicóloga

A cultura do álcool vem embebedando o jovem há muito tempo. A diversão é beber. Beber com os amigos, beber nas festas, beber... Penso e reflito no por que. O que será que se encontra no copo cheio que é a mais atraente das ocupações? Enche-se o copo e esvazia-se um ser. Será mais fácil “ser” quando se está fora de si? Por que se “ausentar de si” para estar presente na balada? A bebida excita, permite, libera, mas a ressaca volta com um real que parece duro de ver. Fico indagando a mim mesma para não cair no erro de simplesmente julgar. Prefiro questionar, tentar compreender.
Dizem que a bebida é o combustível para fazer o que se quer. Interessante! O que queremos precisa ser feito quando mal nos damos conta de nossas ações? Que querer é esse que precisa da bebida para aparecer? Onde fica a responsabilidade de cada um em suas próprias escolhas? Os grupos que bebem se conhecem sóbrios? Ou será que os encontros aproximam as pessoas pelo que elas “têm” ou “são” quando ébrios?
Não beber hoje é estar fora! Fora do contexto, fora do padrão, fora do normal! É negar-se ao ritual de tornar-se etilicamente virtual. Não acredito que a bebida seja um combustível. Se o fosse, carros andariam desgovernados quando o tanque estivesse cheio. Combustível é energia, desgoverno me parece falta de direção.
Beber para relaxar, para dar aquelas risadinhas talvez reprimidas pelo aperto do cotidiano, parece-me natural, saudável e como fator complementar de um encontro, mas não como objetivo maior. Uma noite, um alguém, um vinhozinho... Combinação perfeita! Principalmente se a harmonia não se quebra pelo excesso. Alguns dizem: “eu bebo para esquecer”. Certo, para esquecer... A amnésia alcoólica não isenta ninguém do “lembrar” que o amanhã impõe.
Tomar todas até cair. Tomar o que? Cair em que? Para que? Pelo prazer de perder a conta, de amanhã não se lembrar? Cair e não levantar, precisar “ser levado” pelo outro como se é levado pela bebida?
Por si só não podemos “falar todas” até o dia amanhecer? “Rir todas” e se embriagar de prazer? Não podemos namorar até dar vontade de não parar? Não podemos reunir até parecermos um só, inundado pelo “ser”?
Que gosto a bebida tem que arrasta o jovem como se fosse o único copo para o caminho do prazer? Que prazer é esse de no dia seguinte nem saber com quem esteve, o que fez e principalmente: quis fazer? Isso é prazer ou isso é “pra Ser”?
É, fico embriagada com tantas perguntas que afligem meu ser...
“Sair para beber com amigos” é uma frase que arrisco inverter: Beber com os amigos para “sair”. Sair de casa, sair dos outros, sair do real, sair de si. A vida pode ser maravilhosa no real! Mas então depende de nós não é? Teremos que estar presentes, mostrando a cara, se implicando na nossa vida. Para isso é preciso que estejamos lúcidos, conscientes e orientados, e responder pelos nossos atos, responsabilizarmos pelas nossas escolhas e principalmente termos a coragem de sermos o que somos quando sóbrios.
O álcool evapora no ar, mas impregna a mente. . . Que tal embriagar-se de vida pela vida, pelo viver?

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