sexta-feira, 24 de junho de 2016

A ARTE DE CONVIVER

Conta-se que alguns milênios atrás, quando o gelo cobria grande parte do globo terrestre, muitos animais desapareceram porque não resistiram ao intenso frio. Uma manada de porcos-espinhos, procurando sobreviver, passou a morar em uma caverna. Para se proteger do pesado frio, encostavam-se uns nos outros. Cada um, assim, esquentava-se com o calor dos demais. O tempo foi passando e a manada cresceu. Sendo agora mais numerosos, tinham melhores condições de enfrentar aqueles animais que eram mais ferozes e fortes, e dos quais fugiam.
Cada novo inverno os encontravam mais unidos, mais protegidos e resistentes. De repente, porém, passaram a se esquecer da proteção e do calor que recebiam dos outros. Começaram a reclamar dos espinhos dos companheiros e das feridas que nasciam pelo fato de viverem tão próximos. Esqueceram-se do rigor do inverno e se separaram. De início, sentiram uma agradável sensação de liberdade e de alívio: não precisavam mais suportar os dolorosos espinhos dos companheiros. Estavam livres dos sofrimentos! Mas a sensação de liberdade não durou muito: isolados, e agindo cada um por si, passaram a morrer congelados. Alguns sobreviventes passaram a perceber que também morreriam se não voltassem a se proteger mutuamente. Então, quando começou um novo inverno, dirigiram-se à antiga caverna. Procuraram, novamente, ficar mais perto dos demais, mas só o suficiente para se esquentar. Lembrando-se dos espinhos que cada um tinha, evitavam aproximações que pudessem causar novos sofrimentos.
Descobriram que a convivência impunha-lhes dificuldades, mas somente dessa maneira tinham condições de sobreviver. Puderam então dessa maneira atravessar a era glacial, enquanto que outras espécies de animais, distantes e desunidos, desapareceram, por causa do frio.
Por Dom Murilo S. R Kringer, scj
REFLEXÕES SOBRE A ESTÓRIA:
Viver é conviver. Temos o dom de nos acostumarmos com os nossos próprios defeitos e manias. Julgamos até que eles são verdadeiras virtudes – daí nossa reação, interna ou externa, quando alguém ousa nos criticar. Achamos que os outros, sim, é quem têm comportamentos defeituosos; são chatos, desagradáveis e não percebem os aborrecimentos que nos causam.
Se tivéssemos a coragem de promover uma grande reunião com todas as pessoas que convivem conosco, e lhes pedíssemos que apontassem com sinceridade nossos defeitos, talvez a reunião terminasse de maneira decepcionante para nós: contrariados, riscaríamos esses amigos e conhecidos da nossa vida. “Afinal, onde já se viu dizer aquilo tudo de mim? E eu que pensava que fossem meus amigos, que me amavam!...”.
Quem somos? O que pensamos ser ou o que os outros pensam de nós? Somos o que a convivência faz de nós. Viver é conviver. É mais do que isso: é crescer nas virtudes da tolerância, na renúncia ao egoísmo, nas compreensões e no respeito mutuo, na reciprocidade, é suportar os espinhos e compartilhar as flores sem cobrar nada por isso.
Depois dos espinhos e do frio, o Sol sempre nascerá para aquecer a nova semente que brotará para a vida.

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