quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

SEXO SEM CULPA

Por: Regina Navarro Lins
O sentimento de vergonha sexual faz com que quase todos se recriminem por suas atividades
Os sentimentos de vergonha e culpa sexuais, tão presentes na nossa cultura, fazem com que quase todos se recriminem por suas atividades ou mesmo por seus desejos, como se não fossem algo humano. No mundo ocidental, o corpo é impuro de nascença, visto como inimigo do espírito. Aprendemos a nos sentir envergonhados e culpados por ele, principalmente pelos órgãos sexuais e suas funções. Há muito tempo nos ensinam que imagens do corpo humano nu, particularmente experimentando o prazer sexual, são obscenas. E mesmo quando se consegue rejeitar conscientemente todo esse moralismo, a mensagem negativa é absorvida sem que se perceba. E o sexo sendo visto como algo tão perigoso leva a maioria a renunciar à própria sexualidade.
As antigas civilizações tinham atitudes bem diferentes diante da nudez e do sexo. Desconheciam o conceito de obscenidade, e as imagens dos órgãos sexuais masculinos e femininos eram encaradas com naturalidade. Muitos santuários espalhados pelo mundo mostram representações de vulvas e falos. Até o momento em que o culto ao falo se impôs, há cinco mil anos, havia liberdade sexual e as deusas reinavam absolutas.
Entretanto, a partir daí, os princípios masculino e feminino se separaram. Na arte, na religião e na vida. O princípio fálico, ideologia da supremacia do homem, condicionou o modo de viver da humanidade e a sexualidade começou a tomar outro rumo.
Na tradição judaico-cristã a relação sexual se justifica apenas para a procriação e só é apropriada dentro do casamento. Mas mesmo nele as proibições são muitas. Masturbação, sexo oral, sexo anal, sexo vaginal usando qualquer tipo de anticoncepcional, são pecaminosos por serem considerados antinaturais. Isso sem falar no tormento provocado por outras situações também comuns, como o desejo sexual por outras pessoas que não os próprios cônjuges e por pessoas do mesmo sexo. A impressão é a de que temos um gatilho de culpa pronto para disparar e nos atingir à menor provocação. É claro que a consequência dessa visão tão distorcida do corpo humano é dramática: o grande número de pessoas frustradas e insatisfeitas.
O historiador e crítico social Morris Berman, num estudo intitulado Voltando à razão, argumenta que os ocidentais perderam o próprio corpo. Em grande parte estamos fora de contato com a verdadeira realidade somática. Pelo fato de estarmos “fora do corpo”, procuramos nos firmar recorrendo a substitutos — satisfações secundárias — como sucesso, fama, autoimagem e dinheiro. Esses substitutos não proporcionam uma satisfação completa e, mesmo não levando em conta nossa realidade somática, temos uma preocupação paradoxal com o corpo e sua aparência. Procuramos melhorá-lo com maquiagem, roupas bonitas, cirurgia plástica, tratamentos estéticos, vitaminas.
Diante de tudo isso é impossível não formular uma pergunta: será que a nossa obsessão por sexo não se origina justamente da ausência da verdadeira sexualidade?

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